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Blogando idéias semanais sobre a América do Sul, no CENEGRI

Ditadores africanos: uma surpresa!

Qualquer coisa que puder escrever sobre o possível futuro do Norte da África, hoje, resultará em redundância ou em especulação barata. As caracterizações sobre a onda liberalizante que atropelou os regimes autocráticos já foram feitas: tratam-se de novas formas de atuação política, com uso massivo do twitter e do facebook como ferramentas de comunicação reticular, cujo cansaço com a cleptocracia autoritária levou à convulsão da geopolítica da região.
O que parece mais claro, agora, é que nós não estamos lidando mais com um mundo árabe de terroristas, radicais, e outros subgêneros netamente irascíveis. A capacidade da sociedade civil em se organizar e compor protestos de ordem pacífica, democrática e laica surpreendeu o Ocidente – que por sinal, também descobriu o que não havia notado em 40 anos: o Norte da África era lotado de ditadores intolerantes e repressores.
Os problemas imediatos da queda destes líderes são incalculáveis e por isso há de haver muita calma na análise. Imediatamente, há uma situação delicada do ponto de vista humanitário, com a acentuação emergencial e incontrolável dos fluxos migratórios intra-região e extra-região. A proximidade com a Europa Ocidental é um fator geográfico a se considerar imediatamente, especialmente com as oportunidades geradas pelos laços de parentesco presentes em quase todos os países.
Logo em seguida, há de se levar em conta a ‘imaturidade’ democrática desde um ponto de vista formal: em boa parte destes países, a maior parte dos jovens que movem a avalanche massiva de protestos nunca teve contato com um sistema de representação e participação política que tivesse relacionamento direto com as instituições nacionais. Assim, é muito irônico – e quase debochado – crer que haverá um imediato arranjo partidário estável e que caminhe na direção ocidentalizada da governabilidade. Se o Ocidente queria mudança, deverá estar pronto pro que essa mudança vai trazer; e nem sempre essa mudança vai colocar moderados no poder, se é que vai colocar alguém da forma que imaginamos.
Cada país também terá um conjunto profundo de questões específicas para serem debatidas e debruçadas com muito cuidado. O Egito, de cara, possuia um papel na estabilização (?) do Oriente Médio que hoje é incerto. A Líbia corre um risco imenso de secessão territorial, com clãs (e não tribos, como diz a antropologia de quinta categoria em Washington) disputando o poder e perdendo o centro-de-gravidade Gaddafiano. A Argélia passa por uma profunda crise de violência e instabilidade, com a quebra do estado-de-emergência que já durava 19 anos. A Tunísia, a despeito do seu caráter inicial e da sua geografia ‘menor’, tem um papel como apêndice geográfico desse norte-africano para a fortaleza Europa, hoje cada vez mais uma península empobrecida da Eurásia. O Bahrein, com problemas étnicos profundos – maioria xiita, governo dinástico sunita – está localizado em um ‘chokepoint’, um gargalo de tráfego do ainda imprescindível mercado do petróleo.
O buraco pode se tornar cada vez mais fundo, não nos esqueçamos.
E por aí vai, cada caso com uma situação específica. O que vemos na TV, atônitos, é a incapacidade de compreensão da burocracia que formula política externa em Washington. Velhas receitas para novos problemas. Lá no fundo, como sempre, a China dá uma piscada divertida e deixa a sra. Clinton se empapuçar em truculência obtusa.
A crise é muito maior do que se imagina, com a ameaça de problemas críticos para o historicamente deteriorado complexo de segurança regional africano. A África, que possivelmente teria o seu melhor momento para receber a cooperação internacional ocidental, talvez não goze da devida compreensão do ocidente – que certamente cometerá profundos equívocos e perderá de vez a confiança dessa África rejuvenescida e cada vez mais livre.
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  • SÁBADO, 29 DE JANEIRO DE 2011

    A rede social – ou como a geração Geek entra para a história

    O filme “A rede social”, de David Fincher, não é apenas o ganhador do Globo de Ouro, forte candidato ao Oscar ou um filme que marca historicamente a geração ‘Geek’ (os jovens tecnologicamente aficcionados por inovações). “A rede social” marca mais que isso, avançando vorazmente sobre uma nova forma de comunicação social fidedignamente representante do já sólido século XXI.

    Antes de tudo, a narrativa fílmica trata da geração que derruba fronteiras políticas, sociais e culturais, renovando as possibilidades deos modos de produção pós-industriais. Seja no campus de Harvard, na arena política tunisiana ou nos centros de pesquisa chineses, essa juventude coloca e reformula as modalidades de ação, organização e representação nas espacialidades sociais já existentes, ainda recriando novos espaços. Não se trata de uma conquista ou destruição do mundo como ele é – ou era – mas de um constante processo de criação de novos mundos, justapostos e interrelacionados.

    O diretor David Fincher usou com inteligência a sua capacidade já notória em thrillers como Seven (1995) ou Clube da Luta (1997), filmes que apresentam de forma crua o medo e a violência na sociedade norte-americana. Fincher apresenta uma narrativa habilidosa que dá forma e ação a essa ágil geração, como outros diretores (Michael Gondry, Michael Bay, Spike Jonze, Mike Romanek, Zack Snyder) da renomada produtora Propaganda Films. A compreensão de Fincher sobre as transformações geradas na personalidade self-made, o espírito empreendedor e a contestação social diferenciada fazem de “A rede social” um filme que não conta apenas a crônica de um site com 500 milhões de usuários. Fincher retrata o individualismo dinâmico, a aparição de uma inteligência coletiva e em constante construção.

    Sabidamente, aponta para um futuro sem vilões ou heróis, sem fim dado ou qualquer maniqueísmo. Por sinal, o futuro em “A rede social” atropela o presente, sem respeito às suas regras, aos seus marcos legais formalistas ou a qualquer personalismo. Se a intenção no filme é o retrato aberto de uma geração open source, dividida no paradoxo de um individualismo coletivista, a marca de 2010 para a próxima década está representada nessa narrativa.

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  • CONAIE, história indígena

    SEGUNDA-FEIRA, 24 DE JANEIRO DE 2011

    CONAIE, história indígena

    A Conferación de Nacionalidades Indigenas del Ecuador, a CONAIE, é uma organização confederativa que aglutina e organiza os movimentos sociais e as comunidades indígenas da Costa, da Serra e da Amazônia, as 3 macrorregiões continentais do Equador. Ou seja, com seus 3 grandes grupos organizacionais (a majoritária ECUARUNARI na Serra, CONFENIAE na Amazônia e CONAICE na Costa), a CONAIE é a federação histórica de representação indígena, com 20 anos de atividades formalmente estabelecidas, em uma história de lutas indígenas que transcende a Era Republicana no Equador.

    Segundo as palavras do seu representante atual máximo, Marlon Santi, a CONAIE é a propulsora da modelagem de um Estado Plurinacional (como é o boliviano, por exemplo) através do seu partido Pachakutik e da sua atuação comunitária, fortemente baseada em noções comunitaristas de institucionalidade política e orientadas para além de um modelo republicano formalmente liberal-representativo.

    Conhecemos hoje Marlon Santi, presidente da CONAIE, em uma longa entrevista que orientou boa parte do atual pensamento indigenista equatoriano. Santi, de origem quéchua (ou kichwa, na grafia equatoriana), é o presidente mais jovem da história da CONAIE, no cargo desde janeiro de 2008. Marlon René Santi Gualinga nasceu no ano de 1976 em Sarayacu, amazônia equatoriana, e se tornou notável dentro do movimento social nacional pela sua resistência e liderança contra os avanços das petroleiras transnacionais. Suas posições organizativas são conhecidas e Santi é uma liderança que orienta a CONAIE a ser oposição constante ao governo Correa, que segundo o próprio não atende as agendas das comunidades do interior do país.

    Santi nos explicou que os problemas do estado equatoriano estão profundamente orientados pela corrupção, pelo prebendismo e pela inépcia em fazer com que projetos de sustentabilidade sejam equilibrados de acordo com a heterogeneidade e especificidade do ecossistema e da multicultural sociedade equatoriana. Com isso, rapidamente fica clara a antipatia junto a questão da integração regional viária e energética, para ele fortemente relacionadas a um modelo de desenvolvimento industrialista e não-relacional com a questão do “bien vivir”, do respeito a Pachamama (‘mãe-terra’). Nem mesmo o Socialismo do Século XXI, ainda ligado a parâmetros ocidentalizados – e nessa direção tanto o socialismo quanto o capitalismo assim são ocidentais – serve como orientação ideológica para a questão pós-colonial no século que adentramos.

    Não há dúvida alguma que a CONAIE ainda possui representatividade e que historicamente organiza as lutas indígenas no Equador, buscando uma sociedade menos insustentável e ecologicamente adequada. No entanto, as fragmentações diversas (orientadas por sectarismo religioso evangélico e por ideologia de esquerda ocidentalizada) dentro dessa luta indígena é um problema grave para a CONAIE, afetando inevitavelmente as aspirações para 2014, quando pretende-se lançar um candidato próprio.

    O futuro para a CONAIE, assim, está amplamente dividido. Está entre a resistência residente nas ruas e a traição constante dos ‘elegidos’, dos representantes nacionais apoiados por ela; ou está entre o fracasso eleitoral da Luis Macas em 2006 após a luta quiteña dos ‘forajidos’; ou ainda, para uma forma totalmente diversa de sociedade, plurinacional, multiétnica e fundadora de uma nova república.

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  • Cidade infinita

    DOMINGO, 23 DE JANEIRO DE 2011

    Cidade infinita

    A cidade de San Francisco de Quito, nos seus quase 3000 metros de altitude, tem uma ‘mancha’ urbana de 352km², mas certamente parece ser uma cidade infinita. Gigante, Quito é doce e mansa como uma representação de outra visão de mundo, de uma Cordilheira dos Andes que não deixa de ser combativa – mas aqui, tem outra face.

    Por todo o tempo que se pensa Quito com relação ao resto do país, duas impressões são bastante constantes: a primeira, é que a capital é histórica por excelência – com um centro e um casco colonial bastante ricos, monumentais e barrocos, extremamente barroco! – concentrando séculos marcados por lutas anticoloniais, ritos religiosos e tradição ao sopé dos seus morros.

    A impressão após poucos dias em Quito é que a Terra gira em outra velocidade, aqui na Metade do Mundo. As horas passam mais lentas, o Sol queima de outra forma, o ritmo da vida pulsa diferente. A própria ausência de ar ‘inspira’ – com o perdão do infame trocadilho – uma receita para que se vá mais devagar, com outra dinâmica, outra pulsação. Uma cosmovisão andina, por excelência.

    Todas essas impressões contrastam radicalmente com o passado próximo de Quito. Após uma paupérrima década de ‘80, quando retornava o país à democracia em uma espiral de corrupção, a década de ‘90 se revelou ainda mais difícil do ponto de vista institucional. Em uma crise profunda no executivo nacional, com presidentes depostos por crises mentais e por ascensão de um conjunto de organizações políticas inteiramente novas, a década foi marcada pelo recém-reconhecido sujeito social indígena como ator político de modo definitivo.

    A rebelião dos Forajidos, os marginalizados indígenas e camponeses – foi o último pulso dessa série de revoltas e crises que dolarizou a economia, desmontou a credibilidade institucional e arrastou quase uma década do país para o fundo do poço. Com o fim desse largo período, chega a ao poder a então nova Alianza País, uma larga coalizão que fez o nacionalista Rafael Correa se tornar presidente da república. Com Correa, a autodenominada “Revolução Cidadã” se tornava a representação equatoriana do Socialismo do Século XXI, com forte base nos seus 5 eixos: Luta contra a corrupção, Reforço a economia comunitária, Criação de sistema universal de saúde, Revolução Constitucional e Busca pela soberania nacional.

    Dessa maneira, forja-se em Quito, cidade infinita nas suas histórias, cantões, monumentos e vales escuros, uma nova sociedade que busca essa paz social e encontra aparentemente um caminho de estabilidade política e econômica. Contudo, na quietude quiteña, talvez seja improvável daí afirmar que tudo parece em inerte mansidão. Buscando entender essa mansidão citadina, os então inovadores agentes sociais, culturais e políticos – os indígenas – sem dúvida fazem vozes se tornarem gritos.

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  • Quito, uma nova chegada

    SEXTA-FEIRA, 21 DE JANEIRO DE 2011

    Quito, uma nova chegada

    Quito, 21 de Janeiro de 2011
    Uma nova chegada

    Na entrada do novo ano da segunda década do século XXI, a busca pela compreensão do que significa propor uma nova democracia permanece na América do Sul, não passadas as indefinições sobre o tão falado Socialismo do Século XXI. Se a experiência boliviana é intensamente indigenizada e busca redefinir o papel do Estado como nação, e na Venezuela o renascimento do nacionalismo se dá por uma figura carismática que defende uma nova geometria das relações institucionais, como é a experiência equatoriana? A mistura de um profundo desconhecimento com uma possibilidade inteiramente nova de contato torna tudo mais encantador.

    A chegada a Quito, capital do Equador, é marcada pela sua geografia intensa e diferenciada; nos seus mais de 2.800m de altitude, os morros e os vales são belamente esverdeados, com uma marcada divisão da terra e um brilho encantador. Após longa viagem, a partida desde o Atlântico até a Serra equatoriana, mais próxima do pacífico, marca uma faixa diagonal que recorta o continente e define um largo corredor para pensar uma integração sul-americana, ainda inconclusa.

    Diferentemente de La Paz, ou de Caracas, Quito é uma cidade barroca cordial, silenciosa e arborizada. Com uma presença massiva de indígenas (em sua gigantesca maioria, Kichwas, etnia pré-incaica determinante em todos os países da Cordilheira dos Andes) e mestiços, a capital da dolarização sul-americana apresenta profundas desigualdades sociais, expressas cruamente no altíssimo custo da habitação e alimentação. A moeda nacional, o Sucre, é um passado próximo dos ajustes fiscais do neoliberalismo de fins da década de noventa: toda a economia equatoriana é medida em dólares americanos, resultado do “salto ao vazio” do presidente Jamil Mahuad em fins dos anos ‘90, quando o país foi sacudido por protestos populares – com a indelével participação indígena. Em pouco tempo, o Equador teve mais presidentes que anos completos no fin de siecle.

    Ainda não foi vista, no primeiro dia da pequena visita, a ‘democracia en la calle’ (democracia nas ruas), uma democracia para todos, que é marca fundante do socialismo contemporâneo que hoje estampam Bolívia, Venezuela, e que estaria também no Equador. Mas, há muito o que conhecer pelos próximos dias. A visita a sede da CONAIE (Confederación de Nacionalidades Indígenas de Ecuador), en Pichincha/Los Granados, gera expectativa para o amanhã.

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  • Hacktivismo no futuro do pretérito

    segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

    Com o progressivo transcorrer do aparentemente inesgotável século XX e a chegada da Era da Informação, prenunciou-se o fim do capitalismo industrialista e da sociedade centralmente estabelecida em produção manufatureira em larga escala serial. Decorrente transformação e posfácio da era das luzes, de tudo se esperou e restava cada vez mais a convicção do futuro no conhecimento: de Peter Drucker a Daniel Bell, a sociologia das organizações começou a progressivamente atentar para a vanguarda do que hoje nós conhecemos como o amplo conceito de cibercultura.

    Essa cultura cibernética, que assumia formatações distantes que variavam desde organogramas das então inovadoras empresas ‘multinacionais’ até o universo cyberpunk de William Gibson – passando por ingênuas noções universalistas de Aldeia Global, como diria Marshall McLuhan – estava profundamente firmada na tradição moderna e republicana de liberdade, fraternidade e igualdade, pensara Pierre Lévy. Assim sendo, essa admirável nova forma de apreensão do homem diante do seu novo espaço – o ciberespaço – formava e deformava comportamentos, práticas sociais, afetivas e culturais, disciplinando e rompendo mecânicas coreográficas de biopoder para um século XXI que não era nem bom, nem ruim, nem neutro.

    A cibercultura, em princípio, precisa ser dissociada da conceituação ingênua e pouco profunda sobre o uso massivo de computadores, definição esta por sua vez decorrente do explosivo informacionalismo da nossa sociedade contemporânea e que gera uma leitura superficial indutiva sobre o tão aguardado pantribalismo da Internet. Após a Segunda Guerra Mundial, surgiram inventivas leituras sobre a customização corpórea através de próteses – a figura mítica do Cyborg definida por Klein e Clynes em 1960 – que representam uma amostra do que os impulsos pós-futuristas do capitalismo contemporâneo poderiam representar em novos horizontes da produção, performance e disciplina dos corpos. Do niilismo de Laranja Mecânica ao clima noir da ‘Sprawl trilogy’ de Gibson, passando pela distopia de Philip K. Dick, o relacionamento dos homens com as máquinas – e as suas drogas e ‘benesses’ derivadas – foram interpretados consecutivamente como formas de relacionamento vertical, opressivo e desestruturante do caráter humano e pulsante do ser. O paradigma tipicamente pertencente ao século XX e ao pessimismo “low life, high tech” vigia às vésperas da tão esperada e nunca ocorrida III Guerra Mundial. Sem Bomba Atômica, o medo do futuro residia na própria perpetuação da espécie humana.

    A ruptura com esse amplo conjunto de expectativas distópicas se deu exatamente no fim do período gelatinoso que vai do fim da Guerra Fria (1945-1989/1991) e a Crise Financeira de 2008, quando finalmente seria sepultado o século XX juntamente ao seu império sobrevivente, os EUA. Quando se funde o ataque às Torres Gêmeas ao capitalismo especulativo industrialista americano, com o frigir das guerras no Oriente Médio e um conseqüente golpe às bases morais de sustentação do American Way of Life, entrou cena uma seqüência de duros abalos que desestabilizaram qualquer olhar que ainda considerasse a então tida hiperpotência global. A ascensão de novas projeções sociais e políticas positivadas, por sua vez vastamente embebidas pela herança dos primeiros movimentos ecologistas do último quartel de século XX, contrariaram todas as expectativas mais pessimistas do início do Século XXI. A disseminação do microcomputador doméstico como ferramenta educacional e reguladora do tempo e produção humana provia aos netos do ‘do-it yourself’ punk – impulsionados pelo caminho e contribuição da emancipada geração yuppie – uma amálgama de oportunidades para contribuir individual e coletivamente para uma ação coletiva que transcendia a acepção cultural, agora na direção de uma expressão inovadora de ato político.

    O hacktivismo: política na rede

    A já ‘envelhecida’ Geração X, educada sob a tutela da democracia liberal + economia de mercado (o tão comentado arranjo “neoliberal” do ocidente contemporâneo) e influenciada por filmes como Clube da Luta e Matrix, era resguardada e preparada para a produtividade em um período sem esperanças que se aproximara no tempo presente. Após longo isolamento nas suas relações ascépticas com a nova modalidade de educação televisiva – o microcomputador –, estes jovens encontrarariam seu eldorado nas redes sociais digitais para superar os seus duros impasses sobre as questões de gênero, a afirmação do ser e a sociabilidade. Disciplinados em uma ambiência asséptica de não-dotação do convívio multissensorial intrínseco às relações sociais entre congêneres, essa Geração X desaprendera o sentido revolucionário da violência física, ao mesmo tempo em que era dotada de novas ferramentas de organização, agora descentralizadas e amplamente baseadas em fluxos imateriais de informação.

    É nesse contexto que surge o chamado hacktivismo que ao mesmo tempo mantém a questão revolucionária da iluminista e sombria cibercultura, ainda que se baseando nestes princípios de desobediência civil não-violenta. Esse ativista geralmente é motivado, por um lado, pela já citada necessidade de afirmação gerada por essa neoliberal atomização dos indivíduos – e daí a questão da reputação dos pseudônimos, mesmo nos grupos encobertos pelo anonimato, se torna tão importante. Por outro, é movido por uma profunda insatisfação política derivada de situação social enclausurante, gerando uma orientação de comportamento fora-da-lei, mas jamais concebendo a destruição total do seu sistema, sendo pacífico com relação aos bens materiais e geralmente capacitado para agir sozinho, mantendo-se assim sistemicamente pertencente ao campo de orientação do indivíduo encapsulado, ainda que suas ações geralmente sejam massivas, em bando espontaneamente formado. Em um raso paradoxo, as máquinas autocráticas de governar são desmontadas pelas máquinas domésticas de reprodução assistida do modo de produção capitalista-informacional. A mudança desejada por estes ativistas contemporâneos, portanto, está diretamente relacionada à incapacidade sistêmica dos estados nacionais e pelas corporações capitalistas em estabelecer relações menos voltadas para a exploração e o controle social, desejando acima de tudo um relacionamento mais transparente e menos opressivo. O impulso do hacktivismo político contemporâneo, quando considerado em passo a frente das disputas por reputação, estão diretamente voltadas para um governo colaborativo ‘open source’, em uma metademocracia ultraliberalizada e esgarçada nas suas mais variadas instâncias de participação, com a conseqüente implosão da noção moderna de representação. Assim, a participação política eletrônica (e-participação) seria um hipotético, não-coreografado ‘sit-in’ massivo e virtual, em analogia aos atos de desobediência do movimento dos direitos civis de 1960, nos EUA.

    Tudo isso, desde já, afasta qualquer possibilidade de conciliação entre o ciberterrorista e o hacktivista.

    A ciberpolítica como ela é – ou pode ser

    O que se constituiu e impulsionou essa forma de ação hacktivista foi modelada pelo aumento da capacidade de processamento de informações na própria rede em progressão geométrica. Esta capacidade, por sua vez, gera as condições para que os nós da rede não sejam mais os servidores ou microcomputadores, mas os próprios hotpoints de encontro entre os ativistas – a tecnologia alternativa ‘wiki’. Nesse sentido, se vê comprometida a capacidade de mapeamento, controle e punição dos Estados junto aos grupos dos anárquicos hacktivistas ou ‘cypherpunks’ (cyberpunks dotados de capacitação para manipular códigos-fonte de websites e sistemas de informação) ao passo em que não só as suas formas de organização são fluidas, mas os seus próprios lócus de atividade são orientados por um princípio de replicação fractal. Dessa maneira, os hacktivistas agem constantemente redesenhando os seus modos e espaços de atividade, compartilhando e manipulando coletivamente os seus códigos-fonte através de sites-máscaras e utilitários-soldados coordenados (os bots) que simulam comportamentos e ações humanas dentro de uma matriz combinatória pré-designada . Ou seja, em pontos de encontro tão variáveis quanto um IP e com um verdadeiro exército de robôs virtuais de comportamento coordenado, os hacktivistas utilizam-se de uma típica atuação em rede (conforme o Estado-Rede descrito por Manuel Castells) para desestabilizar o sistema, sem que com isso desejem a sua destruição.

    A ciberpolítica se afirma nesse espaço virtual como uma amálgama de pós-jornalismo científico blogado, que levanta fundos e recruta militantes de modo voluntário para a organização reticular. Censura e repressão, inevitavelmente, recaem sobre o Estado como mecanismos pré-fabricados de controle sobre uma forma de ação política que aciona novas modalidades de articulações retórico-discursivas. A busca pela prestação de contas dos órgãos administrativos ou representativos junto aos seus representados decorre, no início da segunda década do século XXI, de um lado, por um profundo embate de uma ética pós-liberal dos cibercidadãos contra o hermetismo das questões gerais do Estado-Nação mundializado. A implosão das noções modernas de representação e participação políticas, ainda que esbarrem na velha discussão da inclusão digital, é hoje um problema real para as formas de organização e associação cidadãs oriundas dos séculos passados. Em sociedades liberais desenvolvidas do Atlântico Norte, onde a população participa dos pleitos e referendos presenciais do Estado de modo facultativo, a ruptura é ainda maior e tem conseqüências ainda incertas para uma futura e-democracia.

    O sonho messiânico dessa catalizada Geração X ainda não havia ocorrido até dezembro de 2010, quando foi preso Julian Assange e a sua organização, a WikiLeaks, se tornou mundialmente conhecida. A partir daí, todos passaram a olhar para o passado do hacktivismo para pensar um novo mundo. E é nesse olhar que nós nos debruçaremos agora, da Colômbia ao Sri Lanka. E é nesse futuro do passado que está preso Julian Assange, é lá que nasceu o WikiLeaks e é lá que pode morrer um novo mundo perdido onde a informação não seria mercadoria.

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  • Wikileaks Lessons

    terça-feira, 7 de dezembro de 2010


    O que fica de lição do cablegate, o episódio de vazamento massivo de informações e comunicações diplomáticas dos EUA? Como tudo já foi dito, vamos opinar livremente – o que por sinal combina com século XXI.

    Na melhor concepção wiki, em (quase) 140 caracteres:


    - Não dá pra tratar informação no século XXI como se fosse segredo de Estado. É bobagem, perda de tempo e uma inteira incoerência com a democracia contemporânea.

    - Fica a lição de que não se deve mais fazer fofoca ou tratar relações internacionais como se fosse política de porão. Personalismos serão duramente criticados em uma ciberpolítica hiperdemocrática.

    - Já está claro que quanto mais transparente for a ‘prestação de contas’ política para a sociedade civil global, melhor para os líderes, que se expõem menos.

    - Assange não inventou informação. Ele só divulgou. Passarinho que come pedra sabe a barriga que tem: o melhor era não fazer a fofoca. Muito menos por escrito.

    - O máximo que os governos ‘vazados’ vão conseguir é transformar Julian Assange em um sex symbol ou herói hacker das gerações vindouras. Definitivamente, não vai virar vilão.

    - Assange não quer enriquecer urânio, jogar Israel no Mediterrâneo ou destruir a natureza. Nem derrubar governos. Pensem na WikiLeaks como um Greenpeace da informação, é mais adequado.

    - Punir ou matar Assange de modo criminal só vai piorar as coisas. Visibilidade é o que ele quer, isso é a sua vitória política: fazer com que o adversário não triunfe.

    - A ação do WikiLeaks é tipicamente em rede. Persegui-lo como um inimigo, com centro de gravidade (ponto de equilíbrio) bem estabelecido e pilar, não vai adiantar. Talvez a solução seja cortar a alimentação da rede, bem como a comunicação entre os nós. A primeira opção parece mais razoável: acabar com o segredo.

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  • Day-after no RJ

    Não resta dúvida que a ação da coalizão de Polícia Militar e Civil, Forças Armadas, ministérios, imprensa e sociedade civil mudou o paradigma da nossa luta contra a violência nas metrópoles. Agora, o que era ‘inconstitucional’ e vedado tornou-se possível, seguro e atuante. Sem dúvida, o processo é resultado do abandono da noção liberal de convivência e tolerância com a criminalidade – não só o tráfico, mas com a própria corrupção institucional – que culminava na noção insustentável de que existia, de fato, um ‘poder paralelo’ no Rio.

    A questão que se apresentou é que não há, nem jamais houve, poder paralelo algum. O suposto parelelismo era, em verdade, produto de uma inercia institucional para com o narcotráfico, que se rompeu após a reeleição de Sergio Cabral. Por fim, os megaeventos que a cidade do Rio de Janeiro receberá nos próximos anos impulsionaram a ação combinada que o governo do estado articulou.

    Sem dúvida, do ponto de vista militar e operacional, as ações da coalizão foram de total sucesso: rapidamente – em menos de uma semana! – os quarteis-generais do narcotráfico na zona da Leopoldina foram desmontados e ‘decapitados’, através da tática clássica do ‘Martelo e Bigorna’. A Penha, com seus diversos sub-bairros, foi pacificada após o cerco, invasão e ocupação pelas forças. Não resta questionamento nessa direção – e nesse consenso, é importante constatar a mobilização da imprensa, da sociedade civil e das ONG’s ligadas as comunidades e aos Direitos Humanos. O entendimento sobre o tamanho do problema social no Rio forjou de modo inédito o amplo engajamento da população em torno da ação – a despeito de um voraz discurso intolerante e beligerante sobre os objetivos dessa ação.

    A questão que se coloca agora, de modo claro e objetivo, é se estamos diante realmente do início do fim do problema. É crucial uma ampla reflexão sobre como nos posicionaremos, enquanto sociedade plural e heterogênea, diante de décadas de descaso e intolerância com relação aos nossos excluídos e marginais. Possivelmente a anistia, como no caso colombiano, venha a construir uma sociedade menos virulenta para o futuro, apesar do imenso desafio que isso representa dentro da intolerante carioquice.

    Não resta ilusão que as outras favelas do Rio de Janeiro precisam, tanto quanto o resto da sociedade, de uma ação de pacificação e remoção dos cartéis que se instalaram por ali. A dúvida sobre o fim dessa história, se é que isso é possível, recai sobre a conversão real destes espaços reocupados em uma nova territorialidade social. Caso falhemos nesse objetivo, será necessário que não se quebre o espelho a nossa frente e que se reconheça, imperiosamente, que não foi o narcotráfico a origem do mal e da exclusão dos cidadãos, mas rigorosamente o oposto.

    Tolerância pode ser a palavra-chave.

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  • O longo desafio de mais de 360 dias que se impõe diante do kirchnerismo enquanto modo de fazer política na Argentina após a morte de Nestor Kirchner, em outubro de 2010, pode ser revelador para a próxima década na contemporaneidade portenha e, em uma especulação de longo prazo, para quaisquer projetos de integração regional que derivem em uma projeção argentina para a renovação da envergadura desse país na ambiência hemisférica e internacional.

    Deve ser colocado como traço fundamental para a compreensão desse modo particular o aqui denominado ‘kirchnerismo’, que nasce no então polimórfico corpo ‘peronista’ que representa o personalismo nacionalista argentino próprio da segunda metade do século XX como solução para os problemas institucionais da organicidade democrática nessa contemporaneidade. A primeira década do século XXI depende, invariavelmente, dessa solução personalista extra-bonaerense (ou seja, para-além da capital federal que sediou as disputas de poder dos últimos 200 anos) que veio da distante e fria província de Santa Cruz. Assim sendo, Nestor Kirchner repactua sindicatos, pequeno e médio empresariado (as chamadas “PYMES”) e a sociedade civil organizada em torno de um projeto nacional que supera as intempéries liberais que levaram o país a bancarrota econômica e a trágica instabilidade política.

    Após anos de crescimento acelerado do PIB (praticamente 5,5% ao ano, na média dos seus 4 anos) e com uma promissora reinserção regional e mundial do continente – incluindo-se aí uma melhor relação com seus vizinhos e com países exógenos ao eixo EUA-América do Sul, como a China, Nestor Kirchner se referendou e referenciou como uma liderança capaz de eleger sua própria esposa e ex-senadora Cristina Kirchner como sucessora. Portanto, essa articulação seria mobilizadora de um projeto de poder que o conduziria a uma projeção de mandato capaz de manter-se no poder por largos 16 anos, culminando na supressão do fenômeno peronista desde o problema político desse personalismo meta e polimórfico, que abarca desde o sindicalismo até os PYMES antiimperialistas de centro.

    Essa esteira levou Cristina Kirchner ao poder, em uma coalizão chamada “Frente para La Victoria”, que venceu o então chamado “Peronismo Federal” de Menem, De Narváez e Duhalde, simbolizando a hegemonia de uma situação contra-consensual com relação a uma oposição liberal, cujo projeto ainda que arrojado, historicamente se demonstrara falido. No seu mandato, Cristina havia tido diversas contendas com os produtores de commodities agrícolas ao largo dos seus anos de mandato, cuja governabilidade fora assegurada pela imensa capacidade de negociação sindical (afinal, foram anos de experiência advogatícia de Nestor) e com uma articulação, ainda que modesta, com as PYMES através da presença de Daniel Scioli no centro do poder político kirchnerista.

    No momento da morte de Nestor, em outubro de 2010, os Kirchner e o conjunto proto-peronista – cuja reivindicação, através do personalismo e da inclinação nacionalista de esquerda, era de retorno ao conteúdo nacional-desenvolvimentista do Perón ‘original’ – se defrontaram com uma questão fundamental: as ameaças de contra-indulto dos problemas de prebendas e corrupção e, ao mesmo tempo a governabilidade/sucessão se via profundamente ameaçada no pleito nacional de 2011 pela presença constante do vice-presidente Julio Cobos (da histórica oposição radical, da União Cívica Radical, como uma via institucionalista de equação da crise pós-’10). Ao mesmo tempo, Cobos era popular, tinha boa liderança/carisma e se credenciara duplamente pela sua capacidade de aliar poder de negociação (algo ausente da governança kirchnerista) e experiência no cargo. Em uma aliança hipotética com Elisa Carrió, sua concorrente dentro da UCR, Cobos seria um forte candidato.

    A morte de Nestor, nessa direção, resultara em um pesado fardo para o kirchnerismo e, em largo prazo, para o peronismo: como lidar com a ausência do seu ‘principe’? Dois panoramas se apontaram no momento preciso da sua morte, cujo conteúdo trágico seria um balsamo (ou melhor, um costume dentro das tradições milongueiras portenhas) sobre as já residentes incertezas sobre a governabilidade no vizinho portenho. Por um lado, o peronismo se veria profundamente rachado na incapacidade de Cristina Fernandez, sem Kirchner, em governar de forma conciliatória, além das suas frações múltiplas internas; por outro, o radicalismo (leia-se UCR) se veria diante de uma oportunidade histórica rara, na qual não haveria uma linha de sucessão peronista e uma aliança intra-partidária poderia colocar Cobos+Carrió, com uma agenda de restauração da institucionalidade democrática e da pluralidade política na Argentina largamente apoiadas por uma plataforma multilateral que, por sua vez, indicaria o apoio e socorro da economia argentina em uma aliança Brasil + Argentina para a superação em 5 ou 10 anos.

    Independentemente do cenário a traçarmos, vista a nebulosidade do temperamento político portenho, é possível que apontemos para o fim de um kirchnerismo personalista que se projetaria com grande probabilidade ao largo dos próximos 8 anos. A superação do institucional pelo político, na cena argentina, é um passado que pode – ou não – se tornar passado, tendo de ser francamente observados os próximos momentos após o início do ano que vem.

    Se Cristina logrará a criação de um novo mito fundador em torno de Nestor (com a necessária ajuda do aparelho justicialista) para a unificação do peronismo para a Argentina futura, ou se haverá uma reorientação propositiva de uma nova agenda nacional para o desesperador século XXI argentino, trata-se de uma questão fundante e futura para 2011. A agenda eleitoral e política, bem como a econômica, invariavelmente estará situada nessa direção.

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  • Piñera e os mineiros

    Qual é o resultado imediato, do ponto de vista político, da libertação dos mineiros chilenos?

    É evidente que não se tratou só de um resgate ‘humanitário’, com toda a panóplia mediática de TV, rádio e internet em tempo-real que se desdobrou desde o start do processo de soerguimento dos mineiros. A ampla divulgação, mundializada, de uma liderança carismática e uma primeira-dama que abraçam a família chilena – na verdade a metáfora do país chileno em um momento difícil de união nacional – situam o governo liberal de Sebástian Piñera como humano, solidário e dedicado (noite e dia!) a ajudar a melhorar as condições de vida do povo chileno.

    Passa Piñera, Golborne e o seu governo tecnicista (supostamente de ‘coalizão entre os melhores’) Um suposto exemplo, portanto, diante dos atuais destaques para o chavismo e os demais movimentos carismáticos de bravata na América do Sul.

    Bem como ele, a CODELCO (Corporación Nacional de Cobre) e o ministro da mineração, Lawrence Golborne, sobem o elevador da popularidade

    Com isso, Piñera sobe a sua popularidade nacional, regional e global para se lançar a liderança mais estável de um país profundamente desigual, mas membro da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o que tecnicamente o insere no ‘primeiro mundo’ da economia mundial.

    Nesse contexto, a greve de fome do povo autóctone/indígena Mapuche, que se opõe claramente ao projeto liberal e chama para o centro da sociedade chilena a questão agrária mostra que a sociedade chilena não é tão unida o quanto parece. Ou que, ao menos, há uma margem substantiva dessa sociedade que se vê excluída e que demanda mudança social.

    O Chile, com esse resgate, será visto de forma mais amena, emocionada e querida pelos espectadores e por boa parte dos governos em todo o mundo. Não é o momento para criticar e apedrejar Piñera, chama-lo de liberal ou xinga-lo pelo uso abusivo dos meios de comunicação para propagar a sua eficácia técnica, mas para reconhecer como opera essa virada e como pode se fazer, de forma simples, que o momento de um resgate seja politicamente utilizado para surfar na crista da onda global de simpatia e regozijo. E a bola da vez é o pragmatismo tecnocrático chileno.

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