Geopolítica Econômica e a sua Utilização pelo Brasil – Breves Considerações


Artigo do Colunista CENEGRI Alexandre Ramos Coelho.

Quando voltamos a nossa atenção para as relações entre o Brasil e a África, por exemplo, notamos que a utilização de instrumentos de cooperação políticos e econômicos (exemplos: comércio; investimentos diretos e, especialmente, a presença de multinacionais brasileiras em território angolano) têm sido parte de uma política externa que tem se mostrado exitosa desde a década de 70. O Brasil pode fortalecer o emprego de estratégias geopolíticas econômicas nas suas relações com a África, com outros países asiáticos, do oriente médio e da América do Sul, visando minimizar constrangimentos políticos e econômicos de Estados centrais com quem mantém relações assimétricas de poder, tais como os Estados Unidos e os países que compõem a União Europeia (uma confederação).

Mas, como podemos definir geopolítica econômica? Temos diversas definições sobre o que é geopolítica, sendo impossível achar um conceito considerado mais adequado ou completo. Não há sequer uma concordância entre diversos estudiosos do tema sobre a definição do que seja geopolítica (BLACKWILL e HARRIS, 2016), de forma que o conceito aqui adotado pode não refletir o entendimento de outros estudiosos que consideram a geopolítica de acordo com uma lógica militar e geográfica. Assim, diferentemente das definições de Y. Lacoste e F. Ratzel, em que a geopolítica pode ser estabelecida como o “estudo da influência dos fatores geográficos sobre a política” (HUGON, 2009, p.9), Vesentini (2016) concebe a geopolítica como um campo de estudos multidisciplinar, não se resumindo ela a uma única disciplina, seja a geografia e/ou a estratégia militar. Para ele, a geopolítica contemporânea pode ser compreendida como um espaço de estudos interdisciplinar (exemplos: ciência política; economia; história; geografia e/ou sociologia) relacionada à “correlação de forças no plano espacial, com ênfase na escala global”. Baracuhy (2015), explica que a geopolítica trata do estudo da configuração de poder no sistema global e suas consequências para a competição política internacional. Essas definições nos levam a entender a geopolítica como um campo de estudos multidisciplinares cujo objetivo é entender de que forma os Estados exercem ou projetam o seu poder no espaço global, seja esse poder político ou econômico ou ainda a combinação de ambos.

Nesse contexto, Baracuhy (2015) esclarece que a geopolítica e a geoeconomia estão essencialmente relacionadas à competição geoestratégica por hegemonia e poder internacional no mapa político global. A diferença, prossegue ele, é que na geoeconomia é ressaltada a dimensão do poder econômico contido na lógica geopolítica. Como exemplo no que se refere à essa competição geoestratégica pela busca de poder internacional, notadamente econômico, Baracuhy (2015) assinala o “uso político da rede diplomática em países específicos para promover e defender o acesso a mercados e investimentos de empresas nacionais no exterior ou para captar investimentos”. Observamos que, embora esteja vinculada à geopolítica, a geoeconomia não se confunde com ela, possuindo características próprias em que a política internacional e a geoestratégia se relacionam com objetivos econômicos de um Estado, de um ator não-estatal ou ainda de uma combinação de ambos.

De acordo com Luttwak (1990), a lógica da guerra com instrumentos militares, mesmo que ainda presente, passa a dar lugar cada vez mais à lógica do comércio ou da guerra com instrumentos econômicos. Continua ele, afirmando também que a competição não se dará mais no campo da ideologia ou da corrida armamentista e sim com a conquista de mercados, com ou sem déficits na balança comercial e com a corrida por ganhos monetários. Grevi (2012) indica que a geoeconomia compreende tanto a conversão de ativos econômicos em projeção política, quanto a promoção do poder político para atingir objetivos econômicos, seja por meios competitivos ou cooperativos.

Enfim, a geoeconomia abarca o uso político para fins econômicos e vice-versa, em que esses dois fenômenos se retroalimentam em direção à conquista econômica e política de espaços dentro do cenário internacional, seja essa busca de poder feita tão somente por Estados ou pela combinação de Estado e ator não-estatal, representado por empresas multinacionais como parece ser o caso do Brasil em relação à África subsaariana, por exemplo. Nesse caso, o Brasil projeta poder por meio de suas multinacionais, seja em Moçambique ou em Angola, por meio da Petrobras, da Embrapa ou da Fiocruz.

E quanto ao soft power ou poder brando? Há alguma conexão entre ele e a geoeconomia, por exemplo, um modelo geoeconômico brasileiro? De acordo com Nye (1990), soft power é a capacidade de influenciar o comportamento de terceiros de forma a obter os resultados que se desejam por meio de agendas, persuasão e atração. Além disso, o poder econômico pode ser convertido em hard ou soft power (NYE, 2006). Caso um Estado aplique sanções econômicas sobre outro, trata-se de aplicação de hard power e não soft. No entanto, se determinado Estado leva riqueza para outro, trata-se do emprego de soft power (NYE, 2006). No que se refere ao Brasil, o exercício da política externa sempre foi marcado por persuasão e construção de consenso em claro exemplo de soft power (BURGES, 2008). Pessoa (2012) finalmente pontua que esse poder brando faz parte do modelo geoeconômico brasileiro em razão da forma com que o Brasil se relaciona com os demais Estados, isto é, dando ênfase à negociação, à cooperação e aos investimentos realizados.

Quanto às relações com Angola e Moçambique, por exemplo, também estão presentes a cultura e o mesmo idioma, que por sua vez fortalecem ainda mais a característica de poder brando do Brasil em suas relações internacionais. Em síntese, com base nesses conceitos e características admite-se que o modelo geoeconômico brasileiro aproveita desse soft power proveniente da política externa.

Em suma, essas breves considerações nos levam a questionar se a geoeconomia ou a geopolítica econômica, presentes nas relações do Brasil com alguns Estados africanos, não seria uma estratégia que o Brasil poderia fortalecer ainda mais nas suas relações externas, não só com esses Estados, mas também asiáticos, sul-americanos e do oriente médio, para diminuir ou controlar a influência política e econômica de países como os Estados Unidos e a China, cuja ascensão econômica sobre o país cresce constantemente desde 2009. Afinal, se o Brasil quer assegurar algum poder político e econômico nas suas relações internacionais com Estados centrais e da periferia, deve ele, sem abandonar as conexões políticas com as potências do Norte, permanecer e aprimorar a sua relação de cooperação sul-sul.

 

Bibliografia

BARACUHY, Braz. Geoeconomia: a lógica geopolítica no comércio mundial. Revista de Política Externa, vol.24, Nºs 1 e 2. São Paulo: HMG Editora, 2015.

BLACKWILL, Robert e HARRIS, Jennifer. War by other means – Geoeconomics and Statecraft. Cambridge, USA: Harvard University Press, 2016.

BURGES, Sean W. Consensual Hegemony: Theorizing Brazilian Foreign Policy After the Cold War. International Relations. Vol. 22, Nº 01. 2008.

GREVI, Giovanni. Geo-economics and Global Governance. In: Ana Martiningui e Richards Youngs (ed.), Challenges for European Foreign Policy in 2012: What Kind of Geo-economic Europe? Madrid: Fride, 2011.

HUGON, Phillipe. Geopolítica da África. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2009.

LUTTWAK, Edward. From Geopolitics to Geo-Economics: Logic of Conflict, Grammar of Commerce from The National Interest. In: Thuathail, Gearóid Ó, et al. The Geopolitics Reader.

NYE, Joseph S. Think Again: Soft Power. Foreign Policy. Fevereiro, 2006. Disponível em:  <http://foreignpolicy.com/2006/02/23/think-again-soft-power/>. Acesso em: 20.07.2017.

_________. Soft Power. Foreign Policy. Outono, 1990. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/1148580?seq=1#page_scan_tab_contents>. Acesso em: 20.07.2017.

PESSOA, Igor M. Brazilian Geo-economics – A study of the Brazilian model. Saarbrücken, Alemanha: Lambert Academic Publishing, 2012.

VESENTINI, José William. Novas Geopolíticas. São Paulo: Editora Contexto, 2016.

 

Alexandre Ramos Coelho – São Paulo, 30.07.2017.

Colunista do CENEGRI

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