Geopolítica Monetária – Estados Unidos e China e as formas de exercício do Poder Monetário


por Alexandre Coelho - Colunista do CENEGRI

Artigo do Colunista do CENEGRI – Alexandre Ramos Coelho

Grevi (2012) aponta que o uso da geopolítica econômica, o que abrange instrumentos monetários, compreende tanto a conversão de ativos econômicos em projeção política, quanto a promoção do poder político para atingir objetivos econômicos, seja por meios competitivos ou cooperativos. Em suma, países com maior poder monetário são capazes de projetar poder além de suas próprias fronteiras sobre outro Estado, visando obter desse último, benefícios políticos e/ou econômicos (Malmgren, 2015; Blackwill e Harris, 2016). Ressalta-se ainda que uma potência econômica estatal amplifica o poder monetário e de investimento de um país, utilizando instituições financeiras ou empresas multinacionais (atores não estatais) ao realizarem operações de compra e venda de moedas ou investimentos estrangeiros por meio desses atores.

Mas, como de fato, o exercício do poder monetário de um Estado se materializa? De acordo com Kirshner (1997), o poder monetário pode se caracterizar de três formas básicas:

  • Manipulação da moeda ou currency manipulation: é a possibilidade de um Estado manipular uma moeda, visando desestabilizar o sistema monetário de um país que não quer colaborar com os interesses ou objetivos do país (Estado Líder) que aplica o seu poder monetário sobre o Estado Alvo. Por exemplo, em 1956, o Presidente Dwight Eisenhower dos Estados Unidos, com suas atenções voltadas para a guerra-fria com a União Soviética e visando proteger os interesses políticos, econômicos e militares dos Estados Unidos, pressionou a Inglaterra para que ela desistisse da invasão do Canal de Suez próximo à Península do Sinai. De que forma? Ameaçou instigar um ataque especulativo à libra-esterlina até o total colapso monetário da Inglaterra (Blackwill et al, 2016; Kirshner, 2013). Visto que a Inglaterra não possuía reservas internacionais suficientes para fazer frente a qualquer ataque especulativo à sua moeda, ela desistiu da invasão em troca de assistência monetária por parte dos Estados Unidos (Kirshner, 2013);

 

  • Ruptura sistêmica ou systemic disruption: é a tentativa de um país, por meio de determinadas estratégias, em destruir ou desestabilizar sistemas monetários inteiros de um país ou de um conjunto de outros países (Estados Alvo). Não produtores podem causar uma ruptura em determinado sistema monetário, alterando o seu volume de compras de determinada commodity. No começo dos anos 30, os Estados Unidos aumentaram a compra de prata e, devido à triplicação do preço da prata, saíram da China enormes quantidades dessa commodity para os Estados Unidos, causando uma profunda recessão na China (Middelkoop, 2016). Consequentemente, a escassez de prata nesse país forçou, em última instância, a China a trocar o padrão prata – em que se baseava o seu sistema bancário – por uma moeda específica emitida pela autoridade monetária chinesa (Middelkoop, 2016 e Kirshner, 1997); e

 

  • Promover e explorar a dependência monetária de um país ou monetary dependence: Com a dependência monetária, o país detentor de poder monetário pode criar uma área de influência monetária ou um bloco de países que utilizem a sua moeda ou em que o sistema monetário seja atrelado à moeda do país detentor do poder. Essa situação pode ser exemplificada quando, para colaborar com os interesses do país detentor do poder monetário, o país mais fraco do ponto de vista financeiro recebe vantagens comerciais e fica neutralizado e isolado em relação às políticas comerciais de terceiros países.

Outros exemplos podem ser encontrados envolvendo a América do Sul e é com esse tipo de poder monetário que eu gostaria de chamar a atenção do leitor para as relações monetárias entre a China e determinados países da América do Sul. Em 2016 a China celebrou acordos de troca de moedas com o Chile, assim como já tinha feito com o Brasil – swaps cambiais (renminbi por pesos chilenos e/ou por Reais, no caso brasileiro) – e igualmente obteve a aprovação da entidade regulatória chilena para a instalação de um banco de compensação e liquidação de contratos em moeda chinesa no Chile[1]. O China Construction Bank passou a promover a utilização da moeda chinesa no intercâmbio comercial entre o Chile e a China. Também em 2016, o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, com sede na China, fez sua primeira emissão de títulos de dívida em moeda chinesa, visando captar recursos para investimentos em infraestrutura em países da América do Sul, entre outros[2].

Esses fatos podem demonstrar como a China tem ampliado gradualmente o seu poder monetário internacional não só em direção ao sudeste asiático, mas também junto à América do Sul[3]. Podemos nos questionar se a China, país detentor de um considerável poder monetário nesse começo do século XXI, poderá ou não criar uma área de influência monetária ou um bloco de países que utilizem a sua moeda ou em que o sistema financeiro e comercial sul-americano, a partir do Chile por exemplo, seja atrelado à moeda do país detentor do poder, isto é, a China. Afinal, esse país tem demonstrado sua força monetária especialmente após a crise financeira internacional de 2008, em que o poderio monetário dos Estados Unidos foi relativizado. Kirshner (2013) esclarece que o poder desse país, até então com poder monetário internacional hegemônico inquestionável, ficara relativamente enfraquecido em relação ao euro e ao renminbi (nome oficial do yuan, a moeda chinesa).

Essas descrições, brevemente comentadas aqui, nos permitem extrair alguns elementos para futuros estudos geopolíticos. Trata-se do poderio monetário ascendente da China nos últimos anos[4] em contraposição ao que ocorreu no começo do século XX. A China parece desafiar, mesmo que em menor escala, o papel do dólar no mercado financeiro internacional e a hegemonia monetária norte-americana na economia da América do Sul, proporcionando o surgimento de uma relação triangular (Estados Unidos, China e América do Sul)[5]. A relevância desse aspecto se revela porque a China tem procurado colocar em xeque a influência americana no mundo e na América do Sul, notadamente por meios econômicos, diferentemente da Rússia, que durante o período da guerra fria, tinha o expediente militar como a sua maior ferramenta geopolítica.

 

Bibliografia

BLACKWILL, Robert D. e HARRIS Jennifer M., War by Other Means. Cambridge: Harvard University Press, 2016.

GREVI, Giovanni. Geoeconomics and Global Governance. In: Ana Martiningui e Richards Youngs (ed.), Challenges for European Foreign Policy in 2012: What Kind of Geoeconomic Europe? Madrid: Fride, 2011.

KIRSHNER, Jonathan. Currency and Coercion: The Political Economy of International Monetary Power. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1997.

KIRSHNER, Jonathan. Bringing Them All Back Home? Dollar Diminution and U.S. Power, 2013. Disponível em: https://csis-prod.s3.amazonaws.com/s3fs-public/legacy_files/files/publication/TWQ_13Summer_Kirshner.pdf. Acessado em: 05.07.2017.

MALMGREN, Pippa. Geopolitics for Investors. CFA Institute Research Foundation, 2015.

MIDDELKOOP, Willem. O Grande Reajustamento – As Guerras do Ouro e o Xeque-Mate Financeiro. Coimbra: Conjuntura Actual Editora, 2016.

STALLINGS, Barbara. The USA-China, and Latin America Triangle: Implications for the Future. In: ROETT, Riordan and PAZ, Guadalupe. China Expansion into Western Hemisphere – Implications for Latin America and the United States. Washington: The Brookings Institution Press, 2008.

 

[1] Cf. The Economist Intelligence Unit. Disponível em: < http://www.eiu.com/industry/article/1454215729/china-construction-bank-approved-to-operate-in-chile/2016-05-12>. Acesso em: 04.08.2017.

[2] Cf. Disponível em: <http://www.valor.com.br/financas/4567871/banco-dos-brics-fara-emissao-em-renminbi>. Acesso em: 03.08.2017.

[3] A China é, por exemplo, desde de 2009, o maior parceiro comercial do país e vem aumentando a sua importância econômica nas relações com o Brasil. Cf. Ministério das Relações Exteriores –Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/portal.itamaraty/index.php?option=com_content&view=article&id=4926&Itemid=478&cod_pais=CHN&tipo=ficha_pais&lang=pt-BR>. Acesso em 05.08.2017.

[4] Junto com o Dólar, o Euro, o Yen e a Libra-Esterlina, em 2016 a moeda chinesa passou a compor a nova cesta de moedas do SDR (moeda do FMI – direito especial de retirada). Cf. em IMF Launches New SDR Basket Including Chinese Renminbi, Determines New Currency Amounts. Disponível em:  <http://www.imf.org/en/News/Articles/2016/09/30/AM16-PR16440-IMF-Launches-New-SDR-Basket-Including-Chinese-Renminbi>. Acesso em: 07.0.2017.

[5] Cf. STALLINGS, Barbara. The USA-China, and Latin America Triangle: Implications for the Future. In: ROETT, Riordan and PAZ, Guadalupe. China Expansion into Western Hemisphere – Implications for Latin America and the United States. Washington: The Brookings Institution Press, 2008.

Por Alexandre R. Coelho para o CENEGRI em 03.09.2017.

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