Jerusalém e as Ameaças de Trump – Uma análise por Alexandre Coelho


 

De acordo com notícias recentes do New York Times[1], Donald Trump ameaçou suspender as assistências e ajudas financeiras a todos os países-membros que votaram no Conselho de Segurança da ONU e na Assembleia Geral contra a resolução norte-americana que reconhece Jerusalém como a capital de Israel.

Essa informação pode ser analisada sob diversas perspectivas dentro das relações internacionais. Do ponto de vista da geopolítica econômica[2], a assistência ou o socorro financeiro ao país-receptor – seja para incentivar o desenvolvimento econômico desse país ou simplesmente como ajuda humanitária – para “comprar” influência é um dos mais claros exemplos de ferramenta geoeconômica (Blackwill e Harris, 2016).

A previsão era de que, a partir de 2017, os Estados Unidos iriam desembolsar valores superiores a 5,5 bilhões de dólares todo ano em ajuda militar para estrangeiros (Blackwill e Harris, 2016), entre eles o Egito[3]. Entre 1948 e 2016, os Estados Unidos disponibilizou 77,4 bilhões de dólares para o Egito, incluindo 1,3 bilhões de dólares em ajuda militar anual[4]. Esses valores desembolsados, vinculados com contrapartidas concretas, tornaram-se poderosos instrumentos de projeção de poder e de influência por parte dos Estados Unidos no Oriente Médio.

No entanto, as ameaças de Trump, relativas às retaliações econômicas, podem estimular determinados países dessa região, como o Egito, a Arábia Saudita e a Turquia, importantes aliados militares dos Estados Unidos no Oriente Médio, a formarem alianças com parceiros até pouco tempo improváveis, como por exemplo, a Rússia[5]. Os países do Oriente Médio têm se aproximado dessa potência, visando obter benefícios similares àqueles provenientes dos Estados Unidos, especialmente quando esse país apresenta comportamentos contrários aos interesses de outros Estados situados nessa complexa região política do mundo[6].

Além disso, com base na teoria de equilíbrio de poder, que tem sido um tema central nos estudos de realistas modernos, tais como Robert Gilpin e Kenneth Waltz, países que se consideram ameaçados por uma determinada potência militar e/ou econômica – Estados Unidos – procuram se aliar a outra potência – Rússia (militar) – para mudarem a balança de poder em favor dessa outra potência[7]. Ao ignorar princípios básicos de geopolítica econômica e da teoria de equilíbrio de poder[8], Trump está iniciando ou mesmo acelerando um processo de perda de influência política, militar e econômica no Oriente Médio.

Quando voltamos o foco para a América do Sul, observa-se, com base em dados econômicos[9], que os Estados Unidos está rapidamente cedendo a liderança – relativa à influência econômica – para a China, que por seu turno está se tornando economicamente hegemônica nessa região.

Em suma, ao ameaçar outros países com uma futura retaliação econômica, mesmo que ela não seja efetivada, Trump pode por a perder décadas de trabalho diplomático e de assistência financeira realizados por governos anteriores, em que o objetivo era conquistar zonas de influência econômica e militar, não só, mas também no Oriente Médio e na América do Sul.

 

Bibliografia

BLACKWILL, Robert D. e HARRIS Jennifer M., War by Other Means. Cambridge: Harvard University Press, 2016.

KAUFMAN, Stuart J; LITTLE Richard, e WOHLFORTH William C., The Balance of Power in World History. New York: Palgrave Macmillan, 2007.

[1]Cf. NYT 20.12.2017 <https://www.nytimes.com/2017/12/20/world/middleeast/trump-threatens-to-end-american-aid-were-watching-those-votes-at-the-un.html?emc=edit_na_20171220&nl=breaking-news&nlid=54330995&ref=cta>; Cf. NYT 21.12.2017: <https://www.nytimes.com/2017/12/21/world/middleeast/trump-jerusalem-united nations.html?hp&action=click&pgtype=Homepage&clickSource=story-heading&module=first-column-region&region=top-news&WT.nav=top-news>; Cf. Al Jazeera 21.12.2017: <http://www.aljazeera.com/news/2017/12/jerusalem-resolution-country-voted 171221180116873.html>.

[2]Cf. CENEGRI: <http://cenegri.org.br/portal/?p=1457>.

[3]Cf. U.S. Department of State <https://www.state.gov/t/pm/sa/sat/c14560.htm>.

[4]Cf. NYT 20.12.2017 <https://www.nytimes.com/2017/12/20/world/middleeast/trump-threatens-to-end-american-aid-were-watching-those-votes-at-the un.html?emc=edit_na_20171220&nl=breaking-news&nlid=54330995&ref=cta>.

[5]Cf. Washington Post 11.12.2017 <https://www.washingtonpost.com/world/middle_east/a-look-at-egypt-russia-relations-as-putin-visits-cairo/2017/12/11/eaac3ab6-de7d-11e7-b2e9-8c636f076c76_story.html?utm_term=.fac6cbdb59e2>; Cf. RAND Corporation 2017 <https://www.rand.org/pubs/perspectives/PE236.html>.

[6]Cf. Rand Corporation – Russian Strategy in the Middle East – Report 2017: <https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/perspectives/PE200/PE236/RAND_PE236.pdf>.

[7] Cf. Stephen M. Walt – Foreign Policy / 08.12.2017: <http://foreignpolicy.com/2017/12/08/whos-afraid-of-a-balance-of-power/>.

[8]  “The balance of power ‘refers to an actual state of affairs in which power is distributed among several nations with approximate equality” – Morgenthau, 1978; “…balance-of-power theory suggests that great powers, and indeed many lesser powers, should band together to balance against the rising potential hegemon” – Wohlforth, Kaufman e Little, 2007.

[9]Cf. Brookings Institutions – The Geopolitics of China’s rise in Latin America –  <https://www.brookings.edu/research/the-geopolitics-of-chinas-rise-in-latin-america/>; Cf. Foreign Affairs / 08.11.2017 – <https://www.foreignaffairs.com/articles/south-america/2017-11-08/trump-riles-latin-america>; Cf. Ministério das Relações Exteriores: <http://www.itamaraty.gov.br/portal.itamaraty/index.php?option=com_content&view=article&id=4926&Itemid=478&cod_pais=CHN&tipo=ficha_pais&lang=pt-BR>.

 

Alexandre Coelho

Colunista – alexandre.coelho@gvmail.br

Doutorando em Relações Internacionais – USP, mestre em direito e desenvolvimento econômico pela FGV-SP, com pós-graduação em finanças pela FGV-SP e em organizações e relações internacionais pela Universidade Harvard. Advogado e ex-assessor jurídico do Bank of China no Brasil.

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