Colunista CENEGRI, Ricardo Luigi: Perder pode ser ganhar   Recently updated !


Perder pode ser ganhar

Ricardo Luigi*

 

Um livro baseado em entrevistas com membros do governo e da campanha de Donald Trump traz revelações inusitadas que reforçam a ideia de que, na política, perder pode ser ganhar.

A obra, “Fire and Fury: Inside the Trump White House” (Fogo e Fúria: Dentro da Casa Branca de Trump), de Michael Wolff, recém lançada nos Estados Unidos, vem causando intensa discussão em torno dos objetivos ocultos por trás da empreitada presidencial de Trump.

Em novembro de 2016, tão logo foram definidas as eleições presidenciais nos Estados Unidos, publiquei um artigo chamado “Trump e o ônus da vitória”. Nele, defendia que a vitória de Trump talvez fosse inesperada até mesmo por ele e que, a partir desse dado, provavelmente sua eleição lhe traria mais ônus do que se ele tivesse perdido.

Como previsto, Trump está tendo que arcar com sua inabilidade para o cargo e o peso de tomar decisões de impacto global. Tudo era mais fácil no reino das suposições, bravatas e fake news. Esse problema pelo qual Trump está passando também se repete na política nacional.

Ganhar a disputa é só um dos objetivos da corrida eleitoral, e para alguns, o objetivo menor. Não à toa existem trinta e cinco partidos ativos no Brasil e outros sessenta e oito buscando sua criação. Obviamente não há espaço para todos se elegerem, mas sempre sobram cargos e uma fatia do fundo eleitoral.

No começo dos anos 2000, no Rio de Janeiro, houve um caso de um candidato a vereador que confidenciou estar aborrecido por ter sido eleito. Veterano de outras candidaturas, nunca conseguia votos suficientes para a câmara municipal, mas saía fortalecido e conquistava importantes cargos na administração pública. Eleito, teria que trabalhar mais sua imagem, arcar com novas responsabilidades e perder os benefícios habituais.

O candidato perdedor na política tem um outro benefício espetacular: o de ser “anti”. Não se trata simplesmente de ser oposição, algo vital para o bom funcionamento da democracia. Mas o “anti” não precisa ter projetos, propostas, a ele bastando criticar freneticamente todas as iniciativas da situação, com ou sem evidências para tal. O “anti” funciona melhor na oposição e em cargos legislativos. Este tipo de figura tem um apelo popular enorme e tem angariado votos em cima da tendência crescente de desconfiança na política.

Trump é o principal representante do movimento “anti” em escala mundial, por ser desbravador de um cargo executivo, e o tempo e as próximas disputas eleitorais no Brasil e nos outros satélites de influência norte-americana irão comprovar se o discurso vazio para em pé.

Em geral, para os candidatos vazios de propostas, deve valer a pena perder para continuar ganhando.

*Ricardo Luigi é doutor em Geografia pela Unicamp, professor universitário de Relações Internacionais e Geografia e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais.

Publicado originalmente no jornal Correio Popular (Campinas-SP) em 09/01/2018.