Colunista CENEGRI, Ricardo Luigi: Eleições pelo mundo em maio de 2014 – reentrâncias e proeminências


Os últimos dias trouxeram diferentes eleições pelo mundo. Ao observá-las, nota-se o quanto há para se compreender ainda da experiência democrática, que constantemente nos surpreende com suas “reentrâncias e proeminências”.

Na Ucrânia temos um exemplo clássico das surpresas democráticas. O país, que atravessa a maior crise de unidade de seus 23 anos de independência, elegeu o empresário Petro Poroshenko em primeiro turno.

Poroshenko já foi ministro do Comércio e Desenvolvimento Econômico do presidente deposto Viktor Yanukovich, e ministro das Relações Exteriores do governo anterior, de Viktor Yushenko. Ou seja, participou de um governo pró-Rússia e de outro pró-Europa Ocidental. Declarou durante toda a campanha que vai lutar pelo ingresso na União Europeia, mas já em seu pronunciamento após a vitória declarou que quer resolver os problemas do país com a Rússia. Não se sabe como conseguirá conciliar interesses tão distintos.

Diferentes também são os resultados das eleições para o parlamento europeu, realizadas do dia 22 ao último domingo (25). Parte dos pouco mais de 500 milhões de cidadãos dos 28 países da União Europeia escolheram os novos 766 deputados que definirão os rumos da organização pelos próximos cinco anos. Os resultados, apesar de terem causado burburinho, não alteraram tanto a composição dos eurocratas.

De novidade, a ascensão dos extremistas. Principalmente nos países que mais sofrem os rescaldos da crise econômica, os partidos mais radicais, principalmente à direita, viram seus votos crescerem. O resultado mais expressivo foi o da Frente Nacional francesa, de Le Pen. Entretanto, isso aconteceu também na Inglaterra, na Hungria, na Dinamarca e na Grécia, onde o Aurora Dourada conseguiu seus três primeiros assentos em Bruxelas.

Cabe ressaltar, para efeitos de esclarecimento, que o partido mais votado na Grécia foi de extrema esquerda, o Syriza, mostrando que o voto no extremismo não pende só para um lado. Na verdade, os novos campeões de votos na região são os eurocríticos em geral.

No cômputo final, apesar da ascensão da extrema direita, a maioria do parlamento manteve a configuração de outrora: o grupo Partido Popular Europeu, de direita popular, deve manter a dianteira, seguido pela bancada de centro esquerda Socialistas e Democratas.

Ontem e hoje também foram dias de eleições para presidente no Egito. O país, que sofre os trágicos efeitos de uma primavera árabe mal sucedida, deve eleger em primeiro turno o ex-militar Abdel Fattah al-Sisi. Sisi é parte do grupo que fez o golpe, derrubando o presidente democraticamente eleito Mohammed Mursi. Sua eleição deve referendar os rumos que a junta militar que está no governo vem dando ao país

E, por fim, nossa vizinha Colômbia realizou o primeiro turno de suas eleições presidenciais no domingo. Óscar Iván Zuluaga, candidato apoiado pelo ex-presidente Álvaro Uribe, ficou em primeiro lugar, e duelará no segundo turno contra o atual presidente Juan Manuel Santos. A principal pauta de discussão são as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Enquanto Santos defende o diálogo, Zuluaga, a exemplo de seu mentor, apoia uma ofensiva contra os guerrilheiros.

O fim de maio, infelizmente, não trouxe só notícias de proeminentes eleições pelo mundo. A maior reentrância que pode existir para a democracia é quando ela sucumbe frente a um golpe, como acaba de ocorrer na Tailândia. A ofensiva de ditaduras no século XXI é uma ofensa.

* Ricardo Luigi, doutorando em geografia pela Unicamp, é professor de Relações Internacionais da Universidade Paulista (UNIP) e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (CENEGRI) – ricardoluigi@cenegri.org.br

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