Colunista CENEGRI, Ricardo Luigi: Um balanço dos 10 anos da missão de paz da ONU no Haiti


Em 01 de junho de 2004 entrou em vigor a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah). Tendo sido criada pelo conselho de segurança da ONU, e com liderança militar brasileira, a Minustah tem fracassado em seu propósito de estabilizar a nação caribenha.

Os problemas no Haiti não são novos. Apesar da independência precoce para os padrões da América Latina, conquistada em 1804, após lutas contra o colonizador – a França – o país atravessou um histórico turbulento. A instabilidade política deu a tônica desde o século XIX, culminando na intervenção dos EUA no começo do século XX.

A estabilidade tão sonhada não foi alcançada no século XX, e a queda do presidente Jean Betrand-Aristide, em 24 de fevereiro de 2004, fez com que a ONU se mobilizasse nessa nova intervenção, que passou a vigorar em 01 de junho. Na liderança militar dos “boinas azuis” o Brasil, embora tropas de diferentes nacionalidades tenham passado pelo solo haitiano.

Em seu esforço de ajuda, o Brasil fez o que pode. É verdade que liderou as forças militares no Haiti na sua ânsia de se projetar no exterior e aspirar a uma maior representação internacional – possivelmente para fortalecer sua eterna candidatura a uma vaga permanente no conselho de segurança da ONU.

Os brasileiros, liderando os interventores, ajudaram a reconstruir o país. Pacificaram, muitas vezes ao estilo brasileiro de pacificação, com violência desmedida. Levaram a seleção brasileira ainda em 2004 para o jogo da Paz, marco no país. Melhoraram as condições de vida na favela Cité Soleil, até então considerada por muitos a mais violenta do mundo. Contribuíram ainda para a melhoria da infraestrutura.

Apesar dos aspectos positivos, a demora das tropas em sair do país joga luzes sobre os aspectos negativos. A já citada violência, estupros e abusos de poder em geral, acusações de intervenções políticas e até mesmo de introdução da epidemia de cólera por militares nepaleses, fazem com que a população haitiana anseie pelo fim da Minustah.

A epidemia de cólera e o terremoto de 2010 foram os últimos ingredientes da desestabilização do Haiti. O forte terremoto de 2010, de 7 graus de intensidade na escala Richter. O epicentro do sismo foi a 17 km da capital Porto Príncipe, área principal prejudicada pelo desastre. Deve-se levar em conta que Porto Príncipe é uma cidade primaz, ou seja, concentra a maioria da população, 1/3 dos cerca de 10 milhões de haitianos.

Para terminar esse balanço, vale lembrar que informações divulgadas pelo Wikileaks davam conta de que os EUA podem ter contribuído para os problemas políticos do país e que os americanos consideravam a missão de paz “uma ferramenta indispensável à realização dos interesses políticos primordiais do governo [dos Estados Unidos] no Haiti”. Outras acusações dizem respeito ao aproveitamento econômico da Zona Franca de Caracol, no nordeste haitiano, não levando em conta os interesses nacionais.

Se não houver prorrogação, o prazo previsto para as tropas da ONU se retirarem do Haiti é 2016. Infelizmente a Minustah parece não contribuir para o estabelecimento de um país mais desenvolvido, à altura do passado histórico da primeira nação da América Latina a se descolonizar e a abolir a escravidão.

* Ricardo Luigi, doutorando em geografia pela Unicamp, é professor de Relações Internacionais da Universidade Paulista (UNIP) e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (CENEGRI) – ricardoluigi@cenegri.org.br