Colunista CENEGRI, Ricardo Luigi: Para entender o Estado Islâmico


As notícias sobre as barbaridades cometidas pelo chamado “Estado Islâmico” povoam o noticiário constantemente. Torna-se importante, portanto, entender o que é esse levante terrorista, como surgiu e como se realiza o combate a essa ameaça.

Esclareçamos primeiro a questão de nomenclatura: tudo o que eles querem é ser chamados de Estado Islâmico. A mudança para Estado Islâmico foi uma jogada de marketing do chefe do grupo, que também vislumbra a ideia (falsa) de representar todos os muçulmanos.

ISIS (Islamic State in Iraq and Syria – Estado Islâmico no Iraque e na Síria) provavelmente seja o termo mais adequado. Embora também traga na sigla a ideia do Estado Islâmico, retira um pouco do peso da ideia errônea de esse grupo terrorista representar uma nação.

A mídia também utiliza o termo ISIL (Islamic State of Iraq and the Levant – Estado Islâmico do Iraque e do Levante). Levante é o nome dado a uma área imprecisa que compreenderia a Síria e alguns outros países do Oriente Médio.  Pela análise dos nomes fica claro o locus de atuação desse grupo:  norte do Iraque e a metade leste da Síria.

O ISIS eram um pequeno grupo terrorista que se notabilizou ao virar um braço da Al Qaeda – rede terrorista afegã outrora comandada por Osama Bin Laden – no Iraque.  Em sua ideia de jihad, a luta pela difusão de uma visão de islamismo, a Al Qaeda criou diversas células ao redor do mundo. Mas o poder alcançado levou Abu Bakr al-Baghdadi, chefe do ISIS, a romper com a rede baseada no Afeganistão, inclusive ameaçando seu líder, Ayman al-Zawahiri, agora comandante de um grupo decadente.

Dois grandes movimentos de países de fora do conflito fortaleceram o ISIS: por um lado, os países ocidentais que, supõe-se, tenham armado o grupo para ajudar a combater o ditador sírio Bashar Al Assad no auge da Primavera Árabe. Por outro lado, países árabes muçulmanos sunitas da região, como a Arábia Saudita, que apoiaram os grupos pela proximidade religiosa.

Colabora para o crescimento do grupo, ainda, o controle de refinarias no Iraque e na Síria, que rendem cerca de um milhão de dólares/dia. Entretanto, essa não é a única fonte de receita do grupo, que opera com uma plataforma múltipla de atividades ilegais: cobranças de impostos/taxas nas áreas que domina, sequestros, saques e até venda de objetos sagrados, relíquias de antigas civilizações mesopotâmicas.

O combate ao ISIS talvez seja um dos elementos de mais difícil entendimento. Os Estados Unidos contribuíram indiretamente para o fortalecimento do grupo. Por trás de toda a disputa entre grupos radicais muçulmanos e “infiéis”, há também uma disputa entre duas tendências muçulmanas: xiitas e sunitas. Ao combater Saddam Hussein, os americanos deixaram no poder lideranças xiitas. O ISIS comanda um levante sunita contra xiitas e curdos.

Os Estados Unidos, enquanto ocuparam o Iraque (2003-2011), também perderam uma grande oportunidade de ajudar os curdos a criarem seu país. Os curdos são a maior etnia sem país do mundo, cerca de 26 milhões de pessoas, e lutam desesperadamente pela sobrevivência, pois são, ao lado dos muçulmanos xiitas, os maiores perseguidos pelo EI.

É emblemático o nome dos soldados curdos iraquianos: peshmerga, termo que significa “aqueles que encaram a morte”. Curdos, xiitas e demais minorias étnicas estão literalmente encarando a morte, lutando pela sua sobrevivência diariamente, sem maior auxílio da comunidade internacional.

Fica a convicção de que quanto mais entendemos o conflito, menor é a nossa compreensão sobre a não responsabilização das principais autoridades mundiais sobre a sua resolução.


 

* Ricardo Luigi, doutorando em geografia pela Unicamp, é professor de Relações Internacionais da Universidade Paulista (UNIP) e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (CENEGRI).

Publicado originalmente no jornal Correio Popular (Campinas-SP) em 22/11/2014.

 

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