José Luís Fiori: ‘Brasil deverá inevitavelmente competir com os EUA’


Em entrevista, José Luís Fiori falou sobre os novos arranjos geopolíticos que envolvem a relação entre Estados Unidos e Brasil

Qual foi o impacto do escândalo de espionagem dos EUA no Brasil em 2013 sobre as relações Brasil-EUA? O impacto foi apenas político?

O escândalo da espionagem denunciada por Snowden teve um impacto político e diplomático importante e imediato, na medida em provocou a suspensão de uma viagem programada da presidente Dilma Rousseff aos EUA, e um distanciamento visível nas relações pessoais entre a presidenta Dilma e o presidente Obama. Mas qualquer país que disponha de um mínimo de importância internacional e que possua um serviço de informação profissional sabe que os EUA e todas as demais “grandes potências” se espionam entre si, e espionam regularmente os governos dos estados dentro de suas áreas de influencia. Sendo que no caso dos EUA sabidamente esta espionagem é global. O episódio Snowden apenas colocou ao alcance da opinião publica em geral o que é senso comum entre governantes, estrategistas e estudiosos das relações internacionais.. Neste sentido, creio que o estiramento recentes das relações entre Brasil e EUA se deve muito mais a outros acontecimentos e tomadas de posição do governo brasileiro, como foi o caso do silêncio político do Brasil frente à crise ucraniana, e frente ao bloco de aliados incondicionais, constituído pelos EUA, para pressionar o governo russo e faze-los recuar de suas reivindicações geopolíticas; com foi também o caso da posição crítica e da tomada de posição corajosa e sem precedente da diplomacia brasileira frente aos ataques de Israel à Faixa de Gaza, em julho/agosto de 2014; como tem sido o caso da opção brasileira pelo fortalecimento do grupo BRICS, que ficou ainda mais visível na reunião do grupo, em Fortaleza, em 2014, e na aproximação promovida pelo Brasil entre o BRICS e a Unasul, durante esta mesma reunião; e assim também, com a opção brasileira na compra de material bélico e na formação dos blocos empresariais para a exploração do pré-sal brasileiro, que não favoreceram os EUA, em nenhum dos dois casos. Creio que esta nova posição de liderança que o Brasil vem assumindo na América do Sul, e seu novo posicionamento no cenário mundial de não alinhamento automático ao lado dos EUA, têm contribuído muito mais para um certo esfriamento nas relações bilaterais, entre Brasil e EUA,  do que esta ”descoberta” do óbvio, ou seja, que o EUA e todas as demais potências que espionam o governo e as empresas estratégicas brasileiras.

Qual o estado das relações bilaterais hoje?

Creio que depois da recente reeleição da presidenta Dilma Rousseff, tem havido um esforço muito grande, de ambas as partes, a favor de uma reaproximação politico-diplomática, e a favor de um aprofundamento das suas relações econômicas, com o estabelecimento de um novo tipo de protocolo na relação entre os dois países. Mas acho que o progresso desta reaproximação dependerá muito mais do desdobramento dos conflitos que hoje atravessam o establishment da politica externa norte-americana, do que da própria diplomacia brasileira.

A Presidente Dilma Rousseff deve se encontrar com o Presidente Barack Obama na Cúpula das Américas. Nessa ocasião, espera-se que ela dê uma resposta ao convite norte-americano para uma visita de Estado. Em sua opinião, Dilma vai aceitar o convite? Ela deveria aceitar?

Tenho a impressão de que a presidente brasileira já respondeu à sua pergunta, esclarecendo que já aceitou o convite para ir aos EUA, ainda no ano de 2015, numa visita de trabalho, e não numa visita de Estado

Qual o futuro das relações Brasil-EUA? Nos próximos anos, o Brasil tende a se aproximar ou se afastar dos EUA no sentido econômico? E quando à política externa?

As duas coisas, mas em momentos distintos, e em áreas diferentes. De qualquer maneira o importante é ter em conta que as relações entre o Brasil e os EUA estarão sempre condicionadas pelo fato de que:

– São os dois maiores países do hemisfério ocidental;

– Os dois foram criados  pelos europeus e pela sua civilização cristã;

– Historicamente, o Brasil sempre teve maior dependência dos EUA do que a inversa;

– Na medida em que o Brasil expanda e projete sua influencia internacional, dentro e fora da América do Sul, deverá inevitavelmente competir com os EUA, porque queira ou não, todo país que se propõe ascender à uma nova posição de liderança regional ou global, terá sempre que questionar os arranjos geopolíticos e institucionais que foram definidos e impostos previamente, pelas potencias que já são ou foram dominantes, dentro do sistema mundial. – Esta regra, entretanto, nunca impediu nem impedirá o estabelecimento de convergências e alianças táticas, entre a potência ascendente e uma ou várias das antigas potencias dominantes.

Ou seja, do meu ponto de vista, o mais provável é o Brasil e os EUA se aproximem e distanciem periodicamente, como se fosse numa partida de wei gi,  em que a regra básica é a da “coexistência combativa” entre os parceiros envolvidos, sem que nunca se chegue à nenhuma espécie de casamento durador, ou, à alguma espécie de cheque-mate definitivo.

Créditos da foto: Leopoldo Silva / Senado Federal – Flickr

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