Colunista CENEGRI, Ricardo Luigi: (ONU) entre a utopia e realidade


(ONU) Entre a utopia e realidade

Ricardo Luigi

A Organização das Nações Unidas completa 70 anos em 2015. São 70 anos de uma ideia que lhe é anterior, tem seus primórdios na frustrada Liga das Nações: criar um ambiente de paz entre as nações.
Desde suas origens a Onu carrega esse peso de ser uma utopia, como se criar um mundo mais harmônico fosse impossível diante da busca incessante por satisfação de interesses egoístas, seja por parte dos homens, seja por parte dos países.

Os avanços das Nações Unidas foram conseguidos nesse ambiente, entre a utopia e a realidade, evitando que a disputa real de poder entre países descambe tão facilmente para a violência desmedida, mas nem por isso deixando de refletir a distribuição desigual de capacidades entre os países.

A assembleia geral da ONU se reúne “com pompa e circunstância” nesse aniversário de 70 anos da instituição. Nunca antes se reuniram tantos chefes de Estado com interesses tão antagônicos. Questões outrora indiscutíveis, como as ligadas ao meio ambiente e ao subdesenvolvimento, estão na ordem do dia, concretizadas nas metas de desenvolvimento do milênio e no seu herdeiro mais novo, a Agenda 2030. E precisam de fato ser enfrentadas.

Copio trecho da Carta das Nações Unidas, assinada em 26 de junho por 50 nações – incluindo o Brasil: [o propósito das Nações Unidas é] “unir as nossas forças para manter a paz e a segurança internacionais, e a garantir, pela aceitação de princípios e a instituição dos métodos, que a força armada não será usada a não ser no interesse comum, a empregar um mecanismo internacional para promover o progresso econômico e social de todos os povos”.

Infelizmente a vontade das principais potências prevalece na condução dos assuntos internacionais. A hipótese de paz e equilíbrio é uma exceção a governos que não partilhem das mesmas regras e valores. A Onu precisa ser mais representativa. Não só dos principais Estados Ocidentais. Não só dos principais Estados. Não só dos Estados.

Estamos no mesmo barco, mas essa interdependência entre os países não tem trazido necessariamente benefícios comuns a todos. É preciso aproveitar momentos como esse, de mobilização coletiva, para lutar por direitos mais amplos.

A Onu, com seus 5 membros do conselho de segurança com assento permanente e direito de veto, não representam a vontade dos 193 membros da organização, que também não representa as mais de 250 nações existentes no mundo.

Em suma: a Onu tem problemas, mas esse não é o problema. As necessidades de reforma no sistema das Nações Unidas são dilemas naturais de um mundo permanentemente em construção, onde a demanda por alternativas se dá de acordo com o avanço das relações internacionais.

Talvez seja importante recuperar o pensamento atribuído a Mahatma Gandhi: “não existe caminho para a paz. A paz é o caminho”.


 

* RICARDO LUIGI
Doutorando em Geografia pela Unicamp, professor de Relações Internacionais da Universidade Paulista (Unip) e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (Cenegri)

Publicado originalmente no jornal Correio Popular (Campinas-SP) em 29/09/2015.

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