Colunista CENEGRI, Ricardo Luigi: (TPP) O complexo de pedigree


A Parceria Transpacífico (Trans-Pacific Paterniship – TPP – em sua sigla em inglês) recebeu todos os holofotes da mídia brasileira nas últimas semanas. Para o mal ou… para o mal, pois seguiu-se ao anúncio uma grande quantidade de análises rasteiras, repetitivas e ideológicas.

O caso da cobertura do TPP é exemplar de um ponto de vista da abordagem superficial e sob perspectiva unilateral. O senso comum midiático – e há cada vez mais adeptos dele – difundiu a estatística falaciosa de que os 12 países integrantes do acordo representavam aproximadamente 40% do PIB mundial. Não, o dado não está equivocado. Mas é enganoso. Estados Unidos e Japão sozinhos representam cerca de 35% do PIB mundial. Outros 10 países respondem pelos 5%. O que torna o dado representativo de nada. Bastavam EUA e Japão no acordo.

Outro argumento ideológico é celebrar o acordo como panaceia, ignorando todas as dificuldades que ele encerra. Não bastassem os desacordos internos que existem entre os integrantes, não há dados confiáveis que nos permitam divisar quais serão os ganhos efetivos dessa negociação, se é que existirão. O próprio acordo ainda está no campo das intenções, correndo risco de nem sequer vir a ocorrer. E o efeito deletério que os outros países, à exceção das duas principais potências, terão na questão dos direitos de propriedade intelectual?

A propósito, por que Coreia do Sul e Colômbia, parceiros tradicionais dos EUA, não aderiram? Por que o Brasil perderia com a Alca mas não perderia com o TPP? Por que não o acordo União Europeia – Mercosul? Nesse ponto chegamos ao auge do discurso vazio. Acrescentem-se nesse balaio a recusa injustificável em relação ao Mercosul, que apresenta dados econômicos crescentemente positivos, e a fobia em relação à China. Se a competição é econômica, não mais política, por que objetar a China em favor dos EUA?

Tão pernicioso quanto o complexo de vira lata é o complexo de pedigree que acomete certos setores no Brasil, o que nos leva a querer ser “mais realistas que o rei”. No caso específico, “mais liberais que os Estados Unidos”, promotores da ordem liberal, que, a seu bel-prazer, criam e destroem coisas belas, para parafrasear Caetano Veloso. Não pretendo com isso dizer que os americanos são bons ou ruins, maniqueísmo comum nas cabeças dos ideólogos que adoram chamar de ideologia aquilo que não é espelho. Mas, sem dúvida alguma, o TPP não é o único caminho.

O Brasil não está fechando portas, até porque elas não foram abertas. Não faz sentido ingressar em um acordo para o qual não fomos convidados, mesmo porque não partilhamos dessa “região” de países banhados pelo oceano pacífico. O TPP, por sinal, pode pôr fim à outrora tão incensada OMC. E nesse sentido, é prudente esperar uma “acomodação de camadas”.

O internacionalista americano Robert Keohane nos lembra de um velho provérbio africano: “Quando os elefantes brigam, a relva é pisoteada”. Os mesmos que insistem com a tese ideológica de que poderíamos ser anões diplomáticos devem entender que não podemos correr o risco de sermos atropelados por quem quer que seja nesse delicado momento.

* Ricardo Luigi é doutorando em Geografia das Relações Internacionais pela Unicamp, professor de Relações Internacionais da Universidade Paulista (UNIP) e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (Cenegri) – ricardoluigi@gmail.com


Publicado originalmente no jornal Correio Popular (Campinas-SP) em 30/10/2015.

 

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