A reconfiguração do consumo no BRICS diante da instabilidade global e o papel da inteligência artificial na adaptação econômica por Albert Selmikat
A instabilidade recente no sistema internacional deixou de se limitar ao campo político ou militar. Seus efeitos avançam sobre o funcionamento da economia global, alterando cadeias produtivas, pressionando mercados energéticos e, sobretudo, reconfigurando o consumo.
Diferentemente de crises pontuais, o momento atual combina choques persistentes e interdependentes. Isso amplia sua propagação e dificulta sua absorção, criando um ambiente de incerteza que afeta diretamente decisões econômicas cotidianas e altera expectativas de empresas e consumidores.
Estrutura econômica e exposição ao choque
Nos países do BRICS ampliado, os impactos não se distribuem de forma homogênea. A diferença está na própria estrutura das economias. Dados do Banco Mundial mobilizados no estudo mostram que o consumo das famílias representa cerca de 65% do PIB brasileiro, aproximadamente 60% do indiano e cerca de 38% do chinês .
Esse dado define o grau de exposição ao choque. Em economias mais dependentes do consumo, como Brasil e Índia, variações de preços e renda se propagam rapidamente. Já em economias como a chinesa, parte desses efeitos é amortecida por uma estrutura produtiva mais robusta, maior capacidade de coordenação estatal e instrumentos de planejamento econômico.
Os canais de transmissão da crise
A crise chega ao consumo por três canais principais:
- energia, que encarece produção e transporte
- logística, que reduz oferta e aumenta custos
- mobilidade, que afeta setores como turismo e serviços
Esses fatores atuam de forma combinada. O aumento de custos pressiona preços, a oferta se torna mais restrita e o consumidor reage. O resultado não é apenas redução do consumo, mas uma mudança no seu padrão, mais seletivo, mais cauteloso e orientado por necessidade, com maior foco em previsibilidade e controle de gastos.
A inteligência artificial como vetor de adaptação
Nesse contexto, a inteligência artificial passa a assumir um papel mais relevante. Sua importância não está apenas na automação, mas na capacidade de reorganizar a resposta econômica diante de choques. Ao integrar grandes volumes de dados, a IA reduz o tempo de reação da economia e melhora a coordenação entre agentes.
Evidências analisadas no estudo, com base em relatórios da OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), indicam que empresas que adotam essas tecnologias conseguem melhorar produtividade, reduzir desperdícios e otimizar cadeias de suprimento, especialmente em cenários de disrupção logística e aumento de custos energéticos .
Esse movimento já se materializa. Empresas utilizam IA para monitorar riscos geopolíticos em tempo real, antecipar disrupções e ajustar cadeias de suprimento, estoques e preços. O que antes era reação passa a ser antecipação, com decisões sendo tomadas com base em dados e projeções quase imediatas.
No consumo, isso se traduz em maior capacidade de decisão. A mediação digital reduz custos de busca, amplia a comparação entre alternativas e permite respostas mais rápidas às restrições econômicas, reforçando um comportamento mais racional.
Nesse processo, alguns países do BRICS se destacam. A China lidera, combinando escala industrial, dados e investimento estatal. A Índia avança rapidamente com seu ecossistema digital. A Rússia mantém relevância em setores estratégicos. Já Brasil e África do Sul avançam de forma mais gradual, refletindo limitações estruturais.
Assimetrias na capacidade de resposta
A adaptação mediada por inteligência artificial não ocorre de forma uniforme. Sua eficácia depende de infraestrutura digital, qualificação da força de trabalho e disponibilidade de dados. Análises do FMI indicam que economias com maior maturidade tecnológica capturam esses ganhos mais rapidamente, enquanto outras permanecem limitadas .
Isso revela uma característica central do momento atual. A mesma dinâmica que impulsiona a adaptação também pode aprofundar assimetrias. Economias mais preparadas respondem melhor, enquanto outras permanecem mais expostas aos efeitos da instabilidade e com menor capacidade de reorganização.
Uma transformação em curso
O que emerge não é apenas uma resposta a um ciclo de crise, mas uma transformação estrutural. O consumo deixa de refletir apenas renda e preços e passa a incorporar incerteza, informação e capacidade tecnológica como elementos centrais.
Nesse contexto, o BRICS revela diferentes formas de responder a um mesmo choque global. Mais do que um bloco homogêneo, torna-se um espaço onde se observam, em tempo real, os efeitos de uma reconfiguração que conecta geopolítica, economia e tecnologia.
Albert Selmikat é pesquisador-associado do CENEGRI.

