Dólar perde força, cai nas das reservas globais e BRICS avançam em sistemas alternativos

The Centre for Studies on Geopolitics and Foreign Affairs

Dólar perde força, cai nas das reservas globais e BRICS avançam em sistemas alternativos

5 de fevereiro de 2026 Blog 0

Petrodólar, BRICS e sistemas alternativos de pagamento: como a queda da participação do dólar abaixo nas reservas globais, o congelamento de ativos russos, a expansão do ouro nos bancos centrais e projetos como BRICS Pay, The Unit, CIPS e mBridge expõem um limite estrutural entre hegemonia militar e controle financeiro internacional

O sistema do petrodólar, base da hegemonia financeira dos Estados Unidos desde o pós-guerra, enfrenta um choque estrutural com a queda da participação do dólar nas reservas globais, o avanço do ouro e a articulação dos BRICS por mecanismos alternativos de pagamento e liquidação fora do SWIFT.

O petrodólar é apresentado como um dos pilares centrais da hegemonia financeira contemporânea, funcionando como um mecanismo permanente de reciclagem de capitais.

Nesse arranjo, receitas globais do comércio de petróleo retornam aos Estados Unidos na forma de compra contínua de títulos do Tesouro, financiando gastos militares elevados e conflitos prolongados.

Qualquer país que cogite reduzir sua dependência desse sistema passa a enfrentar congelamento de ativos, sanções econômicas ou medidas ainda mais severas.

Esse modelo, porém, convive com uma contradição estrutural. A manutenção da dominância exige recursos crescentes, obtidos tanto pela expansão de áreas de influência quanto pela emissão constante de dólares como moeda de reserva global.

Ao mesmo tempo, o endividamento externo dos Estados Unidos funciona como um mecanismo de contenção financeira de rivais, obrigando outros países a sustentar o sistema por meio da aquisição de ativos denominados em dólar.

Os Estados Unidos precisam escolher entre sustentar gastos militares cada vez mais elevados, exemplificados pela proposta de orçamento de US$ 1,5 trilhão para o Departamento de Guerra, ou preservar o controle do sistema financeiro internacional.

A tese é que não é possível manter simultaneamente essas duas frentes no longo prazo.

A Ucrânia, sanções financeiras e o choque estrutural do sistema
Nesse contexto, a guerra na Ucrânia aparece como um ponto de inflexão. Diante da impossibilidade de demonstrar poder absoluto sem comprometer suas próprias bases financeiras, o sistema teria considerado o país “descartável”, ao menos em termos teóricos.

Mais relevante do que o conflito em si foi a intensificação do uso do sistema financeiro como arma geopolítica.

A exclusão da Rússia do sistema SWIFT e o congelamento de seus ativos no exterior são descritos por especialistas como o evento que rompeu o equilíbrio tácito do pós-Segunda Guerra Mundial.

Pela primeira vez, um país com capacidade nuclear e hipersônica foi efetivamente expulso da principal infraestrutura global de pagamentos. Para diversos bancos centrais, esse episódio deixou claro que reservas em dólar ou ativos financeiros ocidentais podem ser, na prática, confiscados.

Como reação direta, bancos centrais de diferentes regiões passaram a ampliar suas reservas em ouro, intensificar acordos bilaterais e estudar sistemas alternativos de pagamento. O movimento é descrito como a primeira grande fissura estrutural no sistema financeiro internacional desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Os BRICS surgem, nesse cenário, não como um bloco que busca derrubar o sistema vigente, mas como uma articulação destinada a construir uma alternativa funcional.

O objetivo é viabilizar pagamentos internacionais, financiamento de infraestrutura em larga escala e liquidações comerciais sem dependência do dólar ou do SWIFT.

Venezuela, Irã e os limites da exclusão do dólar
A Venezuela é um estudo de caso crítico. A questão central é se um grande produtor de petróleo consegue sobreviver fora do sistema do dólar sem sofrer colapso econômico ou destruição institucional. A resposta implícita do sistema hegemônico foi negativa.

No entanto, especialistas relativizam o peso venezuelano no tabuleiro geopolítico, destacando que o país representa apenas 4% das importações de petróleo da China.

O caso realmente decisivo seria o do Irã, que vende cerca de 95% de seu petróleo para a China, com liquidações realizadas em yuan, e não em dólares. O Irã, diferentemente da Venezuela, teria resistido a tentativas coordenadas de desestabilização, incluindo operações de inteligência, ataques e iniciativas de mudança de regime.

Apesar disso, a ameaça de guerra permanece como elemento constante, reforçando o caráter coercitivo do sistema internacional vigente.

Dólar, ouro e a erosão das reservas tradicionais
No primeiro trimestre de 2025, sua participação dominante nas reservas cambiais era de 57,79%. No segundo trimestre de 2025, essa participação caiu para 56,92%, refletindo uma diversificação gradual das reservas globais à medida que os mercados financeiros internacionais continuam a se expandir e evoluir. Fonte: FMI.

Esse movimento é descrito como uma corrida dos bancos centrais por ativos considerados politicamente neutros ou menos suscetíveis a sanções. A aceleração dos testes de sistemas alternativos pelos BRICS ocorre nesse ambiente, caracterizado como um “laboratório” de soluções financeiras paralelas.

O desafio central não é apenas criar novos instrumentos, mas garantir que eles consigam processar volumes elevados de transações.

O sistema SWIFT processa ao menos US$ 1 trilhão em transações por dia, estabelecendo uma barreira técnica e operacional significativa para qualquer alternativa.

The Unit, mBridge e BRICS Bridge
Entre as propostas em discussão, destaca-se The Unit, descrito como um token de comércio baseado em blockchain, não soberano e apolítico.

Ele não funcionaria como moeda, mas como unidade de conta para liquidação de transações comerciais e financeiras entre países participantes.

A proposta prevê que The Unit seja lastreado em uma cesta de commodities ou em um índice neutro, evitando o domínio de um único país. Seu funcionamento é comparado aos Direitos Especiais de Saque do FMI, porém restrito ao ecossistema dos BRICS.

Outra iniciativa é o mBridge, um sistema de moeda digital de banco central compartilhado entre autoridades monetárias e bancos comerciais.

Embora não faça parte formal do chamado “laboratório BRICS”, o mBridge envolve cinco membros, incluindo o Instituto de Moeda Digital do Banco Popular da China e a Autoridade Monetária de Hong Kong, além do interesse declarado de outros 30 países.

Inspirado no mBridge, o BRICS Bridge busca acelerar transferências internacionais, processamento de pagamentos e gestão de contas, eliminando a necessidade de conversão prévia para dólares.

Nesse modelo, países do bloco trocam moedas diretamente, reduzindo custos e dependência do sistema financeiro ocidental.

O papel do Novo Banco de Desenvolvimento
O Novo Banco de Desenvolvimento, criado em 2015 em Xangai, é apontado como o nó central potencial do BRICS Bridge. A instituição poderia assumir funções de conversão cambial, compensação e liquidação dentro do sistema alternativo.

Entretanto, os estatutos do banco ainda estão vinculados ao dólar, o que impede sua integração plena ao novo arranjo. Essa limitação exige uma revisão estrutural profunda antes que o banco possa operar como eixo financeiro de um sistema independente.

O atraso nessa adaptação é descrito como um dos principais gargalos do projeto, evidenciando a distância entre a formulação conceitual e a implementação prática.

BRICS Pay e os desafios operacionais
O BRICS Pay é apresentado como uma infraestrutura estratégica distinta, voltada à construção de um sistema financeiro descrito como descentralizado, sustentável e inclusivo. Atualmente em fase piloto, o projeto deve permanecer em testes até 2027.

A partir desse prazo, os países membros devem discutir a criação de uma unidade de liquidação para o comércio intra-BRICS até, no máximo, 2030. Não se trata de uma moeda de reserva global, mas de uma opção paralela e compatível ao SWIFT dentro do ecossistema do bloco.

Na prática inicial, o BRICS Pay permite que turistas e viajantes de negócios realizem pagamentos via QR code, vinculando cartões Visa ou Mastercard ao aplicativo. Essa dependência, no entanto, é apontada como um problema central, pois mantém o sistema sob vigilância financeira dos Estados Unidos.

O desafio estratégico é incorporar bandeiras próprias dos países do bloco, como UnionPay e Mir, e reduzir a exposição a mecanismos de sanção. Para transações maiores e mais complexas, o obstáculo do bypass completo do SWIFT ainda persiste.

Interoperabilidade, liquidação e sanções
Todos os testes em andamento enfrentam dois problemas centrais. O primeiro é a interoperabilidade das mensagens financeiras, que exige formatos de dados seguros e padronizados.

O segundo é o processamento efetivo da liquidação, ou seja, como os fundos se movimentam entre contas de bancos centrais sem passar por sistemas sujeitos a sanções.

Esses entraves explicam por que, apesar do avanço conceitual, as soluções ainda não alcançaram escala global comparável à do sistema vigente. O caminho técnico e institucional é longo, mas considera irreversível a busca por alternativas.

Yuan, CIPS e a hipótese de uma nova moeda internacional
A internacionalização do yuan surge como uma das possibilidades mais concretas. O sistema CIPS, baseado na moeda chinesa, já opera em 124 países e é descrito como extremamente popular entre participantes do chamado Sul Global.

Criar um sistema totalmente novo é difícil e custoso, tornando o aproveitamento de estruturas existentes uma opção de menor resistência. Ainda assim, há ressalvas quanto à capacidade do yuan substituir o dólar de forma ampla e rápida.

Como alternativa, surge a proposta de uma nova moeda internacional emitida por uma instituição específica, inspirada no Bancor de John Maynard Keynes, concebido em 1944 e vetado pelos Estados Unidos no contexto de Bretton Woods.

Essa moeda teria uso exclusivo em transações internacionais, circulando em paralelo às moedas nacionais, sem função doméstica. Seu valor seria baseado em uma cesta ponderada de moedas dos países participantes, com pesos definidos pela participação de cada economia em termos de paridade de poder de compra.

Petróleo, sanções e o núcleo da hegemonia
O controle do comércio global de petróleo é visto como um privilégio central da hegemonia norte-americana. A precificação e o pagamento em dólares garantem a reciclagem de capitais para ativos financeiros dos Estados Unidos.

Nesse arranjo, alternativas energéticas são desencorajadas, enquanto países que exportam petróleo fora desse controle são tratados como ameaças à ordem estabelecida.

A existência de fluxos energéticos independentes é descrita como um fator que enfraquece a capacidade de coerção econômica.

A articulação dos BRICS em torno de sistemas alternativos de pagamento aparece, assim, como resposta direta a essa estratégia de criação de gargalos e dependências.

Um momento de transição estrutural
Os custos de manutenção da hegemonia se tornaram proibitivos. A aproximação de uma mudança estrutural é descrita como inevitável, marcada pela perda da capacidade de impor vontades unilaterais por meios financeiros, restando apenas a ameaça de guerra aberta.

Nesse cenário, os BRICS são apresentados como atores que buscam capitalizar esse momento histórico, reunindo esforços econômicos, políticos e intelectuais para escapar de um sistema considerado ineficiente, instável e perigoso. Mesmo reconhecendo riscos de retaliação e sanções, a inação se tornou mais arriscada do que a tentativa de construir alternativas.

O impasse entre hegemonia militar e controle financeiro global, entrou em sua fase decisiva, com consequências que ainda estão em plena formação.

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