A saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP: os recados geopolíticos de Abu-Dhabi por Mateus Santos

The Centre for Studies on Geopolitics and Foreign Affairs

A saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP: os recados geopolíticos de Abu-Dhabi por Mateus Santos

30 de abril de 2026 Blog 0

Durante a XVIII edição da World Policy Conference, ocorrida na França, Anwar Gargash, Assessor Diplomático da Presidência dos Emirados Árabes Unidos, discutiu o futuro do Oriente Médio e de seu país em meio a guerra entre Israel, EUA e Irã.

Entre os principais elementos apontados, pode-se destacar uma compreensão sobre a necessidade de reorganização das políticas de segurança regional, colocando em xeque as configurações de alianças entre os Estados levantinos, o Egito e as potências do Golfo Árabe (AL-AMIR, 2026).

Pouco menos de uma semana depois, anuncia-se a decisão dos EAU em deixar a OPEP. Diante do histórico de divergências entre Abu Dhabi e o organismo sobre as cotas de exportação, tal ação não é surpreendente. Entre as primeiras interpretações sobre o fato atual, a versão sobre uma possível vitória do governo Trump se tornou atraente, especialmente com a elevada insegurança energética em nível global e a necessidade de estabilização do mercado petrolífero. Do ponto de vista geopolítico, tal leitura se ampara nos acenos feitos por Gargash e outros interlocutores do país árabe em reforçar suas relações securitárias com EUA e Israel.

Entretanto, o abandono do cartel petrolífero parece passar muito menos por isso. É em Riad que se podem encontrar os principais vetores que explicam esse processo. A saída dos EAU não apenas representa um revés geopolítico e geoeconômico importante para a Arábia Saudita, como sinaliza para o Oriente Médio e, em certa medida, para o restante do mundo uma tendência ainda mais autonomista para o futuro do país de Mohammed bin Zayed Al-Nahyan.

A aliança estratégica com o vizinho saudita desde os tempos da Primavera Árabe vem dando lugar a um cenário de maior tensão entre duas das principais forças centrípetas do xadrez geopolítico médio-oriental e dois dos principais expoentes do chamado novo mundo emergente. Do ponto de vista da segurança regional, clivagens envolvendo o apoio dos EAU ao Conselho de Transição do Sul do Iêmen e as movimentações de Abu Dhabi em favor das Forças de Apoio Rápido no Sudão chamaram atenção para dois aspectos (SANTOS, 2025).

Em primeiro lugar, a assimetria de poder saudita frente ao Golfo árabe se tornou um objeto de desconforto para o Estado emiradense, tendo em vista as suas expectativas de consolidação de uma projeção externa que ultrapassa a mera posição de um sócio menor da Casa Saud. Ainda que a História registre diferentes fatores de dissenso entre os dois países desde os anos 1970, não se pode negar que o atual quadro representa um revés importante diante das tendências de colaboração que, de forma crescente, pautaram a busca por saídas em comum para as crises que se apresentaram desde então. A decisão de não fazer mais parte da OPEP constitui uma espécie de contragolpe em relação aos sauditas, impactando diretamente em uma estrutura de projeção desse poder de Riad. Mesmo isso não necessariamente significando uma ruptura entre os dois Estados (Afinal, os EAU viram de perto os efeitos do cerco ao Catar anos atrás), o cenário que se afirma é de uma sólida disposição de Abu Dhabi em renegociar sua posição na arquitetura geopolítica do Oriente Médio, com ou sem o apoio de Mohamed Bin Salman.

Em segundo lugar, a transposição desse cenário de incertezas entre Riad e Abu Dhabi também tem fundamentos e implicações geoeconômicas. Os avanços no processo de redução da dependência econômica da exportação de petróleo permitiram aos EAU consolidar uma maior margem de manobra diante das flutuações no preço do combustível, o que inclui uma ambiciosa política de expansão da produção em um contexto de provável fonte para a redução do preço no futuro. Que os recursos minerais constituem um vetor para o aprofundamento da diversificação energética do país, isso não é uma novidade. O ponto central da estratégia emiradense é poder explorar um cenário de um mercado petrolífero mais competitivo, substituindo a ingerência saudita pela capacidade de pressão indireta sobre as economias mais dependentes desse produto (MIDDLE EAST INSTITUTE, 2026).

Do ponto de vista global, a perda do terceiro maior produtor do cartel, em um contexto de existência de outras importantes baixas, como Angola, torna-se indicador da consolidação da perda de influência da OPEP na definição desse mercado. Dos tempos de um controle acima da metade da produção global, ficaram apenas os esforços da Arábia Saudita em projetar um arranjo informal (OPEP +) e manter ativa a capacidade de dar as cartas na geopolítica do petróleo.

E Trump? O tempo da política dificilmente lhe permitirá sentir os efeitos mais concretos dessa provável ruptura. Satisfeitos devem estar os chineses que, em meio à crise global, elevaram suas importações de petróleo dos EAU (CHINA…,2026). Disso, pode-se depreender outra importante questão. Gargash está correto ao dizer que o Golfo não poderá ser mais do mesmo após a Guerra. No entanto, seu diagnóstico é um sinal trocado diante da recente iniciativa envolvendo a OPEP. Se existe um futuro para o autonomismo emiradense, este não se encontra sob a proteção dos EUA. O desafio lançado por Abu Dhabi depende da capacidade de instrumentalização de uma declarada guerra econômica com seu vizinho (inclusive aumentando seu poder de barganha), cujo campo de batalha está longe do Atlântico e perto do Indo-Pacífico.

REFERÊNCIAS

AL-AMIR. Khitam. Iran aggression on GCC countries was premeditated, not a reaction: Gargash. Gulf News, Apr. 27, 2026. Disponível em: https://gulfnews.com/uae/government/iranian-aggression-on-gcc-countries-was-premeditated-not-a-reaction-gargash-1.500520428

CHINA importa volume recorde de petróleo dos Emirados Árabes Unidos, Brasil e Canadá em dezembro. Uol, 20 jan. 2026. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2026/01/20/china-importa-volume-recorde-de-petroleo-dos-emirados-arabes-unidos-brasil-e-canada-em-dezembro.htm

MIDDLE EAST INSTITUTE. The UAE’s OPEC Exist. Middle Eat Institute, Apr. 29, 2026. Disponível em: https://mei.edu/events/topic-virtual-briefing-series-the-uaes-opec-exit/

SANTOS, Mateus. [Des]caminhos da chamada “guerra esquecida”: o conflito no Sudão e os interesses do Golfo Árabe. CENEGRI, 2 dez. 2025. Disponível em: https://cenegri.org.br/descaminhos-da-chamada-guerra-esquecida-o-conflito-no-sudao-e-os-interesses-do-golfo-arabe-por-mateus-santos/#page-content

Mateus Santos.  Doutorando em História pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Membro-Pesquisador do Laboratório de Geopolítica, Relações Internacionais e Movimentos Antissistêmicos (LabGRIMA), e pesquiador-associado ao CENEGRI.