China e EUA: encontros e desencontros por Ricardo Luigi
A China tornou-se o maior parceiro comercial da maior parte do mundo no século XXI, superando os Estados Unidos. 157 dos países do mundo têm a China como o seu principal parceiro nos negócios.
Em 2000, o comércio dos Estados Unidos com os outros países do mundo movimentava cerca de 2 trilhões de dólares, enquanto o comércio da China com o mundo representava cerca de 470 bilhões. Em 2024, a China passou a movimentar cerca de 6,2 trilhões de dólares, enquanto os EUA passaram a movimentar cerca de 5,3 trilhões de dólares.
Já teríamos, na soma desses negócios, motivo suficiente para avaliar o impacto do encontro entre o presidente da China, Xi Jinping, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem potencial para redesenhar o sistema internacional. Do lado oriental, uma potência hegemônica em ascensão. Do lado ocidental, uma potência hegemônica em declínio.
A política de “América Primeiro” é uma política de governo que soa como o desespero de quem corre contra o tempo, vendo o seu poderio se esvair pelas mãos. Em desencontro, as políticas de Estado da China, como o planejamento quinquenal (2026-2030) e a visão de desenvolvimento da China (2020-2050) apontam para um país que pensa a longo prazo.
Para o público local, a ida da comitiva de Trump ao país é uma demonstração da importância chinesa. O presidente americano tem um apelido na China, “Chuan Jianguo” (o construtor de nações), pois se entende que as medidas excêntricas tomadas por seu governo favoreceram o desenvolvimento do comércio chinês.
O Brasil acompanha o que sairá da cúpula entre os seus dois principais parceiros. Sem grande potencial para influir na tomada de decisões maiores, resta ao país esperar que China e EUA assumam compromisso com uma maior estabilidade das relações internacionais,
Do lado do chinês, o maior êxito seria um reconhecimento explícito de Trump da política de “uma só China”, enfraquecendo os interesses de Taiwan pela sua independência completa.
Do lado americano, o maior êxito seria o apoio aberto ao fim da Guerra no Irã, com um compromisso chinês por pressionar o aliado, de quem compra a maior parte do seu petróleo.
Na realidade, se não ocorrerem grandes surpresas, o que deve acontecer é um afastamento da guerra tarifária entre os Estados Unidos e a China e a consolidação da plutocracia americana: os grandes empresários que acompanham Trump devem voltar para casa com bons negócios fechados na esteira do “Conselho de Comércio” que deverá ser criado.
Para o mundo, será bom se esse encontro evitar desencontros nos próximos anos, aumentando a estabilidade global e, quem sabe, garantindo acordos de não proliferação nuclear e de regulação do uso da inteligência artificial.
*Ricardo Luigi é geógrafo e internacionalista, professor na UFF.

